13 de ago de 2008

SUCESSO NOS NEGÓCIOS: 'COINCIDÊNCIA' OU INTELIGÊNCIA?

RABINO KALMAN PACKOUZ

Uma pergunta que me fazem freqüentemente é: “o que influi mais no sucesso de um empreendimento: as ‘coincidências’ ou a inteligência – a nossa capacidade de administrar riscos e analisar corretamente as situações que nos aparecem?” Gostaria de responder a esta pergunta com uma história descoberta em dois diários de bordo escritos há mais de 50 anos.

Noite de 28 de novembro de 1944. O submarino USS Archer-Fish, sob o comando do capitão Joseph Enright, patrulhava a baía de Tóquio. No campo de visão de seu periscópio estava o super-porta-aviões japonês IJN Shinano, com mais de 70 mil toneladas – 40 mil toneladas mais que os maiores porta-aviões americano. Sua existência ainda era desconhecida pelo serviço de inteligência norte-americano. Foi originalmente planejado para ser um navio de guerra comum, mas após as grandes baixas nas batalhas navais de Mariana Islands, Leyte Gulf e Midway, os japoneses resolveram colocar toda sua esperança de vitória na construção de um mega-porta-aviões.
O Shinano foi construído com um casco duplo especial, recheado de concreto, para torná-lo impenetrável a torpedos e com compartimentos estanques para eliminar qualquer possibilidade de afundar.

O capitão Enright, porém, estava com problemas: no dia anterior seu radar quebrou. Ao consertá-lo, os técnicos realizaram testes que emitiram sinais que revelavam a sua presença na área. Agora ele estava vendo o gigantesco navio, que viajava muito rápido, a 20 nós – o Shinano podia chegar a 27 nós e os melhores submarinos de guerra alcançavam, no máximo, 19 nós.

Desejoso de não perder contato com o navio, Enright continuamente utilizava o seu radar, uma estratégia não recomendável pois revelava sua presença. Imaginava, entretanto, que já sabiam que estava lá devido aos testes do dia anterior.

Quando o Shinano virou para o sul, não havia mais condições de continuar seguindo-o. O capitão emergiu e enviou então um relatório à base americana anti-submarinos no Havaí, reportando sobre o alvo e seu curso. O USS Archer-Fish seguiu então numa direção em que presumivelmente poderia encontrar o porta-aviões, esperando adiantar-se e encontrá-lo lá na frente, quando atingisse a possível rota que o Shinano estaria fazendo. Cabe salientar que quando um porta-aviões está em águas infestadas de submarinos, costuma ziguezaguear a fim de não se tornar um alvo fácil para os torpedos inimigos.

De repente, eis o super-navio! O submarino rapidamente submerge, preparando seus torpedos. O ângulo de tiro não estava bom, porém precisava fazê-lo. Espere! O porta-aviões começou a virar para o norte, entrando num ângulo perfeito para os torpedos.

O comandante dispara 6 torpedos, com 8 segundos de intervalo entre eles. Quatro acertam o alvo... e cerca de 6 horas depois, o super porta-aviões afunda com quase metade de sua tripulação.

Ótimo trabalho! O capitão Enright recebeu a medalha da Cruz Naval americana. Fez tudo direitinho afundando o ‘Bismarck Japonês’ – a última esperança do Japão! Uso correto do cérebro, da ousadia e da experiência! No entanto, veja o que o capitão Enright nunca soube:

O IJN Shinano está sendo comandado pelo capitão Abe. O Alto Comando japonês ordenou-o a levar o Shinano para os mares do interior do país. Eles sabiam que um avião espião B-29 fotografara a área e temiam que tivesse descoberto o porta-aviões, o que certamente incorreria num ataque subseqüente de bombardeiros sobre a área onde o Shinano estava sendo completado.

O capitão protestou, alegando que o mega-navio ainda não estava pronto: os compartimentos-estanques não haviam ainda sido testados para garantir sua resistência à entrada de água: faltavam algumas vedações e muitas portas estavam desalinhadas. Quatro de suas doze caldeiras ainda não estavam operacionais, permitindo que atingisse no máximo a velocidade de 20 nós. Porém, o Alto Comando ordenou: “Vá de qualquer forma! E faça-o à noite, pois não temos aviões para escoltá-lo!”

O capitão Abe recebeu de seu subalterno o relato de um submarino utilizando radar nas imediações (lembra-se do teste feito pelo Archer-Fish para consertar seu radar?) Ele presume que há uma frota de submarinos no seu encalço. Ao perceber os sinais constantes do radar inimigo (lembre-se: o Archer-Fish não conseguia alcançá-lo, mas não queria perder contato), ordenou aos quatro destróieres que o escoltavam a manter posição ao redor do Shinano. Ele imaginava que os inimigos estavam usando o submarino como isca para afastar os destróieres, de forma que outro submarino pudesse aproximar-se e afundá-lo. Quando um dos destróieres localizou o submarino e saiu em sua perseguição, o capitão Abe chamou-o de volta e deu-lhe uma bronca, antes que este pudesse atirar ou soltar suas cargas de profundidade contra o alvo. Se o destróier tivesse perseguido o submarino, o Shinano poderia ter escapado!

Depois de virar para o sul, o super-navio foi obrigado a diminuir a marcha por causa de um superaquecimento em seu propulsor, diminuindo assim sua velocidade. O capitão Abe é avisado da transmissão de rádio feita pelo submarino – quando o Archer-Fish não mais conseguia manter contato com o Shinano, enviou um comunicado à base do Havaí. Imaginando que o submarino havia transmitido sua posição aos outros submarinos, o capitão Abe resolve mudar o curso de volta para o norte – indo, sem saber, diretamente de encontro ao USS Archer-Fish.

Quando o comandante recebeu o relato de que os sinais de radar do submarino haviam cessado - quando o submarino submergiu para tentar um tiro fora de ângulo -, exclamou: “Ahá! O submarino está prestes a nos torpedear!” E o que fez então? Alterou novamente o curso do Shinano para sair da mira do submarino, o que justamente o levou a entrar no melhor ângulo de tiro para um tiro perfeito!

Antes do impacto dos quatro torpedos, o capitão Abe dá ordens para aumentar a velocidade em direção ao seu destino, presumindo que quatro torpedos não fariam um grande estrago no navio. Ao invés de rumar de volta para sua base ou para terra-firme, o mega-navio aumentou a velocidade. Infelizmente, devido aos problemas com as vedações e portas estanques, sua ordem apenas atrapalhou: com o aumento da velocidade, mais água foi entrando pelo casco, até que ficou tarde demais para salvar o navio e sua tripulação.

Agora, eis a questão: O que afundou o IJN Shinano? A habilidade de navegação e a estratégia do capitão Enright ou as suposições do capitão Abe? Resposta: as duas coisas!

A lição de toda esta história. Precisamos dar o máximo de nós em nossas vidas, levando em conta as informações disponíveis e tomando as melhores decisões baseados nelas. No entanto, o resultado não está em nossas mãos! O sucesso está nas ‘mãos’ do Todo-Poderoso. Se Ele desejar, o porta-aviões afunda, se não, não.

Qual a prova disto? Voltemos ao diário de bordo:

Um ano antes, o nosso capitão Enright estava comandando o submarino USS Dace. A base americana anti-submarinos enviou-lhe uma mensagem super-secreta: haviam interceptado e decifrado uma mensagem naval japonesa, passando-lhe a localização, curso e velocidade do porta-aviões IJN Shokaku – que esteve envolvido no bombardeio a Pearl Harbour. O capitão posicionou-se no melhor local para interceptar o inimigo. Na hora prevista, lá estava o porta-aviões – porém ... 9 milhas mais adiante, longe demais para ser alvejado. Qual o motivo? O capitão Enright percebeu depois que a corrente marítima do local estava 1/3 mais fraca, o que causou a diferença em relação à posição do inimigo. Em pé, na frente de seu periscópio, de coração partido, o capitão Enright assistiu o Shokaku deslizando pelo horizonte, impotente para fazer qualquer coisa.

“O que influi mais no sucesso de nossos empreendimentos: as ‘coincidências’ ou a nossa inteligência, a nossa capacidade de administrar riscos e analisar corretamente as situações que nos aparecem?” Não há como saber, como ter uma resposta precisa. Façamos os nossos melhores esforços, tudo o que estiver dentro de nosso alcance, mas com a certeza de que o sucesso final está nas mãos do Criador!

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Rabino da Comunidade Aish Hatorah - de Miami, E.U.A.