10 de ago de 2008

O INFERNO SOMOS NÓS

Cynthia Rosenburg

Os problemas da esfera pessoal são os que mais tiram o sono dos executivos hoje


Quem acompanha o dia-a-dia das grandes empresas percebe que a dificuldade de concilar vida profissional e familiar é um tema cada vez mais freqüente nas conversas com executivos. Não raro, almoços de negócios e conversas no café terminam em desabafos e relatos de angústia e frustração. Uma pesquisa inédita da psicóloga Betania Tanure, professora associada da Fundação Dom Cabral e mestra convidada do Insead (França) e da London Business School, constatou que essa é a questão que mais preocupa homens e mulheres de negócios atualmente.

Ao longo dos últimos quatro meses, Betania perguntou "o que tira o seu sono?" a 1.282 executivos. Cerca de 300 participaram de entrevistas qualitativas. "As principais razões pelas quais se perde o sono hoje estão relacionadas a questões da esfera pessoal", diz Betania (veja quadro). "É uma mudança significativa em relação a dez anos atrás, quando realizei pela primeira vez o estudo. Naquela época, aspectos associados à empresa eram motivo de maior preocupação." Acompanhe algumas conclusões da pesquisa.

COMPETÊNCIA
A inquietação em relação à própria competência e empregabilidade aparece em segundo lugar na lista de preocupações. "As competências exigidas pelas empresas estão mudando rapidamente e muitos não sabem como se ajustar a isso", diz Betania. Esse item merece destaque, principalmente, entre profissionais de 31 a 40 anos de idade. No que diz respeito à empregabilidade, a preocupação não é propriamente perder o emprego hoje, já que o mercado está aquecido, mas estar preparado para conquistar uma posição melhor amanhã.

MULHERES
Houve um tempo em que a qualidade de vida era uma preocupação mais acentuada para as mulheres do que para os homens. Não é mais assim. "A distância entre os gêneros nesse ponto está diminuindo." No estudo, 26% das mulheres e 23% dos homens apontaram o equilíbrio entre trabalho e família como maior fonte de inquietação. Para as mulheres, o segundo item é competência e empregabilidade, com 19% das respostas (ante 14% dos homens). "As mulheres estão mais antenadas em relação às artimanhas do jogo de poder nas empresas, que é cada vez mais sofisticado", diz Betania. "Elas estão mais presentes nesse jogo, mas ainda não se sentem tão competentes para ele quanto os homens."

RH
No corte por área de atuação, chama a atenção a diferença de respostas entre executivos de recursos humanos e de outras áreas. Por exemplo: entre os profissionais de RH, competência/empregabilidade aparece com 3% das respostas - ante 18% para profissionais da área comercial e 30% de finanças. Qualidade de vida aparece com 37% das respostas do RH, ante 20% e 27% da área comercial e de marketing, respectivamente. O que explica a diferença de percepção? "Esse pode ser um indício de que o RH ainda não está forte no jogo corporativo", diz Betania. "Nos últimos anos, o nível de complexidade e de entrega das outras funções aumentou muito, e na área de recursos humanos isso não aconteceu na mesma velocidade." Outra hipótese é que os profissionais de RH, cada vez mais chamados a entender sobre o negócio, tenham deixado o aperfeiçoamento das competências funcionais para segundo plano.

SEGURANÇA
Um aspecto novo emergiu na lista de inquietações: a falta de segurança e a exposição à violência no dia-a-dia. "Não era uma questão relevante oito anos atrás", diz Betania. Diversos executivos entrevistados por ela relataram casos de violência sofridos por eles próprios ou por familiares. "Eles contam que o filho não pode atravessar a rua sozinho, ou que decidem não trocar de carro para não chamar a atenção. O sentimento geral é de que vivem numa gaiola de ouro."