17 de mai de 2008

PACIÊNCIA

Rabino Kalman Packouz

Certa vez, quando vivia em Israel, estacionei meu carro no estacionamento do shoping center Ramat Eshkol. Quando voltei, encontrei a lataria do lado direito amassada de ponta a ponta. Sob o limpador do pára-brisa havia um bilhete! Surpreso com a ideia de que o motorista não havia apenas batido e fugido, abri o papel: “Eu estava na calçada quando uma senhora dirigindo um Renault azul placa número 123-456 raspou no seu carro e fugiu. Se quiser posso testemunhar na polícia e na justiça”. Estava assinado e com um número de telefone.

Na delegacia obtive o nome e o endereço da mulher. Toquei sua campainha e quando abriu, identifiquei-me e expliquei porque estava ali. Ela respondeu: “Bem, não fui eu quem bateu em seu carro!” Perguntei-lhe se havia alguma outra mulher que dirigia em sua casa. Ela respondeu: “Não”. Então lhe disse que minha próxima parada seria a delegacia de polícia e que, no mínimo ela perderia a carteira de habilitação, com a possibilidade de uma multa pesada e condenação à cadeia.

A esta altura, a mulher ficou furiosa! “Isto não é justo! Mês passado alguém raspou em meu carro e ninguém me deixou um bilhete. Por que eu deveria ter deixado um?” E continuou seu discurso concluindo que não iria pagar nada, porque era minha a culpa por ter estacionado muito perto da faixa branca pintada no chão!

Preenchi o Boletim de Ocorrência e mandei consertar o carro. Durante as duas semanas seguintes ela telefonou, gritando e ameaçando, pressionando-me para que retirasse a denúncia. Finalmente concordou em pagar o conserto. Encontramo-nos na delegacia e ela me estendeu um envelope com o dinheiro (você acha que eu confiaria num cheque desta senhora?) Contei o dinheiro e lhe falei: “Há um erro aqui!”.

Rápida como um raio, iniciou a gritaria! “Eu conheço o seu tipo. Você me arrasta até a delegacia e agora quer extorquir mais dinheiro! Quem você pensa que é? Não vou pagar mais nada...” Depois de uns dois minutos ela parou a torrente de injúrias. Suavemente lhe contestei: “Não, só quero dizer que a senhora me deu 100 shekel a mais” e devolvi a nota. Ela pegou e saiu, bufando de raiva.

Tudo que nos acontece tem uma razão e um significado. Sempre há embutida uma mensagem para aprendermos, para nos aperfeiçoarmos e nos aproximarmos do Criador. O porquê do homem ter deixado um bilhete no pára-brisa estava claro para mim: duas semanas antes eu estava andando de ônibus quando o motorista raspou num carro e continuou a viagem, sem parar. Desci no ponto seguinte e deixei um bilhete quase idêntico sob o limpador do pára-brisa. Como ajudei um ‘acidentado’ antes, Deus fez com que alguém me ajudasse nesta situação semelhante.

Mas, por que sofri aquele ataque verbal, tive de agüentar a insanidade da mulher e a frustração de sua teimosia? Por anos pensei sobre isto. A conclusão a que cheguei é que isto fazia parte do que eu precisava aprender para tornar-me rabino e lidar com o público: ter paciência com pessoas frustrantes.
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Kalman Packouz é rabino da Comunidade Esh Hatorah, de Miami, EUA