27 de jul de 2008

MEGA SENA: MEGA MARMELADA?

ABRAHAM SHAPIRO - de Nova Iorque, E.U.A.

Joguei dezoito números diferentes no último concurso 990 da Mega Sena, do sábado passado. Três cartelas diferentes.

Na manhã de domingo, através de uma página da Internet que carreguei em meu celular, constatei que dois apostadores dividiram o prêmio de quase R$ 53 milhões. A origem destes vencedores me desperta a curiosidade. Um é de Rondônia e o outro de Minas Gerais.

Não poucas vezes grandes somas acumuladas foram divididas ou integralmente pagas a habitantes dos mais remotos lugares do país. É claro que as probabilidades de ganho são próximas de zero para qualquer apostador que jogue apenas seis dezenas. No entanto, é de estranhar a freqüência de ganhadores situados em lugares longínquos.

Gente de S. Paulo e de estados em contingência astronomicamente maior de apostadores é pouquíssimas vezes mencionada entre as premiações de maior monta.

Fatos antigos – como o caso dos “Anões do Orçamento”, que se meteram com loterias para esquentar dinheiro público desviado – ligam-se a boatos atuais. Um desses boatos dá conta da existência de casas lotéricas que não registram grande parte das apostas no sistema da Caixa Econômica Federal para aumentarem seus lucros. Desta forma, pessoas simples, como eu, ficam ressabiadas frente à possibilidade de existência de possíveis manipulações, mormente em ocasiões como o concurso 990 em que a quantidade de zeros do prêmio desperta o sonho de uma vertiginosa fatia da população nacional.

Serei preso por pensar assim? É pecado? Crime? Estarei só nestas dúvidas? E se houvesse uma mínima chance de alguém programar um ou dois cartões premiados após o concurso? O que, de fato, assegura ao apostador que, assim como tantos “rolos” que acontecem em sistemas públicos, este não fosse mais um meio de enriquecimento ilícito de sei-lá-quem?

Isto me preocupa. Sugiro, então, que o Ministério Público faça gestão em torno deste tema. Dois grandes alvos seriam atingidos. Primeiro: maior lisura em mais um processo que envolve as massas. Segundo: o fortalecimento da fé popular, pois, em tempos de grandes fortunas em jogo, estou certo de que o congestionamento celeste de súplicas por riqueza fácil supera, em muito, a velocidade de registro das apostas que os pobres e esperançosos brasileiros levam às casas de jogos.
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Abraham Shapiro é consultor de empresas. Contatos: shapiro@shapiro.com.br