quinta-feira, fevereiro 17, 2011

NÃO POR ERROS, MAS POR ACERTOS

ABRAHAM SHAPIRO

Houve um tempo em que as pessoas costumavam temer o poder empresarial. Hoje em dia, elas temem a incompetência empresarial!

Quase todas as empresas estão em apuros. Em especial as grandes. Olhe o que foi a crise de 2009 – e que ainda não acabou. A General Motors é um exemplo. Com grande dificuldade está conseguindo se erguer de um fosso que, por pouco, não causou estragos irreparáveis.

Há uma análise sobre “competência empresarial” através da qual eu observo que invariavelmente o maior de todos os males de que padecem as corporações de hoje não está na área financeira, ou na qualidade de produtos, ou nos recursos humanos, ou na concorrência, ou mesmo na tecnologia que empregam, mas concentra-se no Marketing. Mais precisamente numa área do marketing cuja função é definir:

- Quais informações são indispensáveis para compor a estratégia de produtos, de divulgação e mercado,

- Como obter estas informações,

- Como processá-las... e

- Como fazer uso delas.

Um grande número de empresas pequenas e médias tem um departamento de marketing. Mas isto não é tudo. O problema que mais se repete é saber qual o papel desempenhado pelo pessoal que aí está?

O que eles geralmente fazem resume-se à programação visual de catálogos, pequenos anúncios, relacionamento com a agência de propaganda ou comunicação contratada, edição de newsletters, e atividades desta natureza. O que nunca se veem são pessoas voltadas à coleta de dados e sua análise. Aparentemente muita coisa. Mas não operam informações realmente úteis.

E como devia ser? Alguns exemplos: ter um canal de atendimento a clientes, uma pesquisa de satisfação a clientes ativos, atendimento permanente e pronto às solicitações que chegam pelo website, frentes de comunicação digitais - como: um blog informativo e as mídias sociais -, etc. Poucos, mas poderosos e relativamente baratos meios de acesso à percepção real de clientes e do mercado.

Pesquisa de satisfação de clientes é uma ferramenta fantástica que só os grandes descobriram. Qualquer ação implementada a partir da análise de um relatório dos dados nela obtidos terá maiores chances de ampliar as vendas que qualquer outra invenção publicitária – por mais bonita e estrondosa que seja.

No entanto, a maioria das empresas sequer aplicam uma pesquisa. Como atuam? A empresa comete um erro estratégico e fica a "ver navios" com a queda em suas vendas, sem conhecer as causas reais. A concorrência – normalmente mais esperta e mais ágil – aproveita-se disso e toma para si o espaço no mercado. Para retomá-lo, a empresa primeiramente em desvantagem precisará esperar até que a concorrente cometa seus erros e, agora, use o mesmo método de aproveitar-se da situação. Nada diferente de uma história de piratas!

O remédio para este método desgraçado de fazer negócios está no Marketing, ou melhor, no real conceito do marketing. Não em anúncios e ações esporádicas de comunicação que se adotam por aí como “a salvação da lavoura”, quando nada mais funciona. É como diz o bom e velho ditado mineiro: “Marmelada na hora da morte acaba matando o doente de congestão”.
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Abraham Shapiro é consultor e coach de líderes. Sua filosofia de trabalho, em uma só palavra, é: simplicidade. Contatos: shapiro@shapiro.com.br ou (43) 8814 1473

RAZÕES POR QUE HOMENS AINDA SÃO MAIS PROMOVIDOS DO QUE MULHERES

Para a profissional de alto potencial, um mentor bem-intencionado não basta.

Herminia Ibarra, Nancy M. Carter e Christine Silva

Alta gerente de marketing de uma multinacional de bens de consumo e candidata ao comando da empresa em seu país, Nathalie (todos os nomes no artigo foram alterados) foi orientada pelo chefe a ter mais visibilidade no mercado. Uma excelente rede dentro da empresa não bastaria para que conquistasse o novo posto, disse ele; a executiva precisava se envolver também em eventos e associações na região. Havia pouco, um programa interno destacara um mentor de alto nível a Nathalie, e ela mal concluíra a demorada preparação que isso exigia quando chegou o convite para um programa exclusivo de formação executiva para gente de alto potencial — para o qual teve de responder a mais questionários de autoavaliação e planejamento de carreira. “Fiquei 12 anos aqui, e nada aconteceu”, observa Nathalie. “Agora, vão me matar de tanta orientação.”

Amy, gerente de vendas de nível médio na mesma empresa, enfrenta um problema parecido: “Para o meu mentor, um plano de desenvolvimento é a quantas reuniões internas e externas posso me expor, a que apresentações posso ir e fazer, a que encontros fora daqui posso comparecer”, diz. “Detesto essas coisas que geram mais trabalho. Odeio dizer, mas não tenho tempo. Tenho três filhos. Para completar, meu chefe atual quer muito que eu me concentre em ‘ideias inovadoras’, e concordo. Quando chegar a vice-presidente, vou estar numa cadeira de rodas, pois todos esses projetos extracurriculares vão me sugar até a última gota.”

Com a rotatividade de pessoal nas alturas no acelerado mercado da empresa na China, Julie, uma gerente de finanças muito valorizada e com potencial de crescimento, também foi submetida a um intenso preparo — mas teme não estar saindo do lugar. Quando foi selecionada para um programa voltado a gente de alto potencial, seu chefe chiou que a equipe na matriz estava interferindo com o esquema de mentores que ele já tocava na região. Julie participou de outro projeto, menos formal, que casava líderes de finanças de níveis júnior e sênior. “Preferiria participar do programa da matriz, pois dá mais visibilidade”, diz Julie. “Mas, se somarmos tudo, é orientação demais.”

Nathalie, Amy e Julie não são casos atípicos. Embora tenham investido tempo e recursos consideráveis em mentores e oportunidades de crescimento, muitas empresas continuam a perder gente de nível médio a alto — daí estarem buscando maneiras de reter talentos do sexo feminino. Num relatório de 2010 do Fórum Econômico Mundial sobre práticas empresariais para a diversidade de gênero em 20 países, 59% das empresas sondadas disseram contar com programas internos de orientação (“mentoring”) e networking, enquanto 28% disseram ter programas específicos para a mulher. Será, porém, que todo esse esforço se traduz em promoções e nomeações de verdade para ambos os sexos?

Os números sugerem que não. Uma pesquisa de 2008 da ONG Catalyst com mais de 4 mil trabalhadores em tempo integral — homens e mulheres de alto potencial formados nos melhores MBAs de todo o mundo de 1996 a 2007 — mostra que a mulher recebe US$ 4.600 a menos [ao ano] no primeiro emprego pós-MBA, ocupa cargos gerenciais de nível inferior e tem consideravelmente menos satisfação com a carreira do que colegas do sexo masculino com o mesmo grau de instrução. O resultado é o mesmo ao computarmos fatores como setor, experiência profissional prévia, aspirações e filhos (para mais conclusões, veja Nancy M. Carter e Christine Silva, “Mulher na gestão: a ilusão do progresso”, HBR Março 2010). Contudo, nesse mesmo universo de gente, mais mulheres do que homens dizem ter mentores. Se está recebendo tanta orientação assim, por que a mulher não está chegando a postos de gerência mais elevados?

Para entender melhor o que está acontecendo, fizemos entrevistas em profundidade com 40 homens e mulheres de alto potencial (incluindo Nathalie, Amy e Julie) selecionados pelas respectivas multinacionais para participar de um programa interno de mentoring de alto nível. Quisemos saber que obstáculos enfrentavam ao assumir postos mais elevados, bem como o tipo de ajuda e apoio que receberam nessa transição. Também analisamos a pesquisa de 2008 para descobrir diferenças no modo como o homem e a mulher são orientados e no efeito do mentoring em sua ascensão. Por último, comparamos esses dados com os resultados de uma pesquisa de 2010 com o mesmo grupo (na qual os participantes deram informações sobre promoções e transferências laterais desde 2008).

Nem todo mentoring é igual, descobrimos. Há um tipo especial de relação — o chamado “patrocínio” —, na qual o mentor não se resume a dar feedback e conselhos, mas usa sua influência junto a altos executivos para promover o pupilo. Nossas entrevistas e pesquisas sugerem que a mulher de alto potencial, na comparação com colegas do sexo masculino, tem mentoring demais e patrocínio de menos — e que não está subindo na organização. Além disso, sem patrocínio, a mulher não só tem menos chance do que o homem de ser indicada para cargos de comando, mas também pode relutar mais em se candidatar a eles.



 




Por que um mentor não basta

Embora mais mulheres do que homens tivessem mentores segundo a sondagem da Catalyst em 2008, o mentor da mulher tem menos poder na organização. Isso é verdade mesmo depois de computado o fato de que a mulher começa em posições de nível inferior ao concluir o MBA. É uma desvantagem real, mostra o estudo, pois quanto mais graduado o mentor, mais acelerado o avanço do pupilo na carreira. Apesar de todo o esforço feito para o desenvolvimento da mulher de 2008 para cá, a sondagem de 2010 revela que os homens receberam 15% mais promoções. Os dois grupos tiveram número semelhante de deslocamentos laterais (cargos do mesmo nível em áreas distintas, para expor o indivíduo de alto potencial a várias áreas da empresa). Mas o homem recebia mais promoções após o movimento lateral; no caso da mulher, esse deslocamento era oferecido no lugar da promoção.

Obviamente, a prova suprema da força do mentoring seria mostrar que sua presença durante a sondagem de 2008 teve um poder estatisticamente relevante de prever a promoção quando da sondagem de 2010. Isso vale para o homem, mas não para a mulher. A mulher pode estar recebendo apoio e orientação, mas, em seu caso, a relação com o mentor não está levando a tantas promoções quanto no do homem.

Os resultados da sondagem casam com o que ouvimos em entrevistas: tanto o homem como a mulher dizem receber conselhos profissionais úteis de seus mentores, mas em geral é o homem que se diz “patrocinado”. Muitas mulheres contam como o mentor as ajudou a se conhecer melhor, a saber qual seu estilo preferido de atuar e em que teriam de mudar ao galgar a escada da liderança. Já o homem conta como chefes e mentores informais o ajudaram a planejar suas tacadas e a assumir as rédeas em novos postos, além de endossar sua autoridade publicamente. É como disse um pupilo do sexo masculino num comentário típico:

“Meu chefe disse: ‘Você está pronto para um cargo de gerência geral. Já é capaz. Agora, precisamos achar um posto: que obstáculos teremos de superar? Você precisa ir falar com fulano, sicrano e beltrano’. Eram, todos, membros do comitê executivo. Meu chefe era uma pessoa cheia de contatos (…). Antes de partir, me apresentou ao diretor da cadeia de suprimento, que foi como consegui esse posto”.

No caso da mulher, não só há menos exemplos desse tipo de patrocínio, como também há muitos relatos de embate com o mentor para que este a considerasse preparada para o próximo papel.

Paradoxalmente, é quando mais precisa de patrocínio — quando se candidata aos postos de nível mais alto — que a mulher pode ter menos chance de obtê-lo. A mulher ainda é vista (por comitês normalmente dominados por homens) como uma aposta de “risco” para esses papéis. Num estudo de presidentes de alto desempenho, por exemplo, a mulher tinha o dobro da probabilidade do homem de ter sido recrutada no mercado, não na própria empresa (veja Morten T. Hansen, Herminia Ibarra e Urs Peyer, “Os CEOs de melhor desempenho do mundo”, HBR Janeiro 2010). Isso sugere que é menos provável que a mulher saia como vencedora na corrida para a presidência dentro da empresa.




Um patrocínio que funciona

Impacientes com a velocidade à qual a mulher está chegando aos níveis mais altos, muitas empresas de ponta com as quais trabalhamos estão adotando uma nova série de estratégias para garantir que mulheres de alto potencial sejam patrocinadas para os postos mais graduados. Esses princípios podem fazer toda a diferença entre um programa de patrocínio que dá resultados e outro que simplesmente soa ótimo no papel.

Esclareça e comunique a intenção do programa. É difícil fazer um bom trabalho de mentoring e patrocínio dentro do mesmo programa. Em geral, os melhores mentores — gente que aconselha e orienta com interesse e altruísmo — não são os bambambãs com influência para empurrar alguém sistema acima. O profissional que espera uma forma de apoio pode ficar muito decepcionado se receber outra. E uma empresa que espera fazer uma coisa pode se ver com um programa que, em vez disso, faz outra. Para evitar esses problemas, a empresa deve definir claramente que resultado quer obter.

No Deutsche Bank, por exemplo, uma investigação interna revelou que diretoras-gerentes que trocavam o banco pela concorrência não o faziam para equilibrar mais a vida pessoal e a profissional. Tinham apenas recebido uma oferta melhor, para cargos aos quais não haviam sido consideradas no Deutsche Bank. A resposta do banco foi criar um programa de patrocínio para instalar mais mulheres em postos críticos. Juntou pupilas com membros do comitê executivo para aumentar a exposição de talentos femininos ao comitê e garantir que a mulher tivesse gente influente defendendo sua promoção. Agora, um terço das participantes está em papéis mais importantes do que um ano atrás, e outro terço é considerado pronto pela diretoria e pelo RH para assumir responsabilidades maiores.

Selecione e combine patrocinadores e mulheres de alto potencial à luz das metas do programa. Quando o objetivo de um programa é fazer gente de alto potencial avançar na carreira, mentores e patrocinadores normalmente são escolhidos com base no poder de sua posição. Quando a meta é o desenvolvimento do indivíduo, a escolha é feita para aumentar a probabilidade de contato frequente e garantir uma boa química.

A Unilever criou um programa com o objetivo explícito de promover mais mulheres de alto potencial aos escalões mais altos. Os dois principais critérios para a escolha de patrocinadores (todos membros do alto escalão da empresa) são experiência em áreas onde o indivíduo de alto potencial precisa se desenvolver e presença à mesa quando forem tomadas decisões de nomeação. Dado o escopo internacional e a organização matricial da Unilever, isso significa que muitas mulheres não vivem nem trabalham no mesmo lugar que os patrocinadores. Logo, algumas não têm muito contato cara a cara com o patrocinador, mas têm um defensor na hora da promoção.

Coordene esforços e envolva supervisores diretos. Programas de mentoring administrados na matriz, que passem por cima de superiores diretos, podem sem querer indicar que a diversidade é um problema de RH que não exige esforço da linha de frente.



A coordenação de esforços centrais e locais é especialmente importante no caso de gente de nível sênior na qual a empresa investe bastante. Um patrocínio eficaz não anda sozinho — é apenas uma faceta de um programa abrangente que inclui avaliação de desempenho, treinamento e desenvolvimento e planejamento da sucessão. Isso tudo, junto, é maior do que a soma das partes. No Deutsche Bank, por exemplo, o programa de patrocínio para diretoras-gerentes é um componente de uma iniciativa altamente personalizada que também envolve avaliações de liderança, coaches externos e workshops de liderança.

Oriente patrocinadores sobre complexidades de gênero e liderança. Um bom patrocínio exige um conjunto de habilidades e uma sensibilidade que a maioria dos executivos de destaque de uma empresa não possui, necessariamente. Se a isso somarmos a complexidade de uma relação de patrocínio entre altos executivos e mulheres de escalão inferior, está armado o palco para equívocos. Estratégias e táticas que ajudaram o homem a avançar na carreira podem não ser atraentes ou mesmo viáveis para a mulher.




Um caso clássico é o desafio de desenvolver um estilo de liderança credível num contexto no qual a maioria dos exemplos de sucesso é do sexo masculino. Uma das mulheres em nossa pesquisa coloca o problema da seguinte forma: “Meu mentor me aconselhou a dar mais atenção a minha capacidade estratégica de influenciar (…), mas muitas vezes sugere que eu faça coisas totalmente contrárias a minha personalidade”. Estilos de comportamento mais valorizados em culturas tradicionalmente masculinas — e mais usados como indicador de “potencial” — são, não raro, pouco atraentes ou naturais para mulheres de alto potencial, cujo senso de autenticidade pode ser violado por requisitos tácitos de liderança.

Uma complicação adicional é o famoso “double bind” examinado no livro Through the Labyrinth (Harvard Business Review Press, 2007), de Alice H. Eagly e Linda L. Carli, e no relatório de uma pesquisa de 2007 da Catalyst (“The Double-Bind Dilemma for Women in Leadership”) . Resumindo, o problema é o seguinte: a conduta assertiva, autoritária e dominante que se associa à liderança normalmente é considerada menos atraente na mulher. Um mentor do sexo masculino que nunca viveu ele mesmo esse dilema pode achar difícil dar conselhos úteis. Como disse uma de nossas entrevistadas, até um mentor bem-intencionado tem dificuldade para ajudar a mulher a se equilibrar na tênue linha entre “não ser agressiva o suficiente” ou “não ter presença” e ser “agressiva demais” ou “controladora demais”. Ela explica o desafio de lidar com expectativas conflitantes de dois chefes diferentes:

“Meu chefe antigo me disse: ‘Se quiser subir, você vai ter de mudar de estilo. É muito bruta, muito exigente, muito dura, muito direta, não é participativa o suficiente’. Meu novo chefe é diferente: quer mais desempenho, preza a agilidade. Agora, ouço o seguinte: ‘Você tem de ser mais exigente’. Estava seriamente empenhada em ser mais indireta, mas agora vou tentar combinar o melhor de ambos”.

É possível ensinar um patrocinador do sexo masculino a reconhecer esses dilemas de gênero. Mulheres no programa de mentoring recíproco da Sodexo, por exemplo, são promovidas a um ritmo mais acelerado do que outras mulheres de alto potencial na empresa, em parte porque mentores homens atuam como patrocinadores da carreira e (graças ao próprio mentoring que recebem) aprendem a controlar vieses inconscientes.

Responsabilize patrocinadores. Para colher plenamente os benefícios do patrocínio, a empresa deve cobrar resultados de patrocinadores. Na IBM Europe, um programa de patrocínio projetado para mulheres graduadas abaixo do nível executivo tem como meta promover participantes selecionadas no prazo de um ano. Patrocinadores, todos vice-presidentes ou gerentes gerais, têm a responsabilidade de garantir que, nesse prazo, todas estejam realmente prontas. Daí darem duro para aumentar a visibilidade das candidatas, promovê-las junto a tomadores de decisão e achar, para cada uma, projetos internos que preencham lacunas em seu currículo e deixem a candidata pronta para ser promovida. Se a mulher não consegue uma promoção, a falha é tida como do patrocinador, não dela.




Embora nossos dados mostrem que um programa formal pode ser bastante eficaz para a promoção da mulher, uma potencial desvantagem é sua duração determinada. Quando uma mulher de alto potencial avança, é comum o patrocinador declarar vitória e seguir em frente — bem quando a pupila precisa de ajuda para assumir com sucesso as novas funções. Não conhecemos nenhum programa projetado para dar apoio à participante após a promoção e nos “cem primeiros dias” no novo cargo. Com essa atenção adicional, um patrocinador poderia ajudar a garantir não só promoções, mas também sólidas transições.

Embora as mulheres que entrevistamos sejam todas da mesma empresa, as tendências ali espelham as de muitas outras organizações que observamos e com as quais trabalhamos. E as respostas à pesquisa, colhidas de homens e mulheres em centenas de empresas, também trazem fortes evidências da diferença dos resultados do mentoring para cada gênero.

A aposta em mais patrocínio pode levar a mulher a ser mais promovida (e mais depressa). Mas não é uma solução mágica: ainda há muito a fazer para eliminar a distância entre o progresso do homem e da mulher. Certos avanços — o apoio de chefes, culturas de inclusão — são muito mais difíceis de impor do que um programa formal de mentoring, mas são essenciais para que esses programas tenham o efeito desejado. É evidente, no entanto, que um primeiro (e crucial) passo é parar de exagerar no mentoring e começar a promover um patrocínio de resultados para ambos os sexos.




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Herminia Ibarra (herminia.ibarra@insead.edu) é professora de comportamento organizacional e titular da cátedra Cora Chaired Professor of Leadership and Learning no Insead, na França, e autora de Identidade de Carreira: a experiência é a chave para reinventá-la (Editora Gente, 2009). Nancy M. Carter (ncarter@catalyst.org) é vice-presidente de pesquisa da Catalyst, entidade americana sem fins lucrativos que trabalha com empresas para ampliar oportunidades para a mulher; é, também, acadêmica-visitante do Insead. Christine Silva (csilva@catalyst.org) é diretora de pesquisa da Catalyst.


quarta-feira, fevereiro 16, 2011

MÃO DE OBRA BÁSICA: CADA VEZ MAIS ESCASSA

ABRAHAM SHAPIRO

Eduardo Dias Vilas Boas é funcionário de uma indústria de móveis, líder de equipe, e numa conversa, há alguns dias, traduziu em poucas palavras as causas da enorme dificuldade que as empresas têm tido em contratar mão de obra. Não mais somente a qualificada, como a mão de obra básica também.

Segundo ele, estamos em meio a um "apagão de mão de obra" - termo cujo uso começa a se alastrar por toda a mídia. Esta dificuldade operacional já seria suficiente se não viesse acompanhada do desinteresse generalizado pelo trabalho. Há um choque, ele observa, entre as necessidades empresariais mais imediatas e os anseios pessoais dos novos contratados.

Valores que educaram gerações passadas tornaram-se lenda nesta década. Estão esquecidos. As pessoas trabalhavam por necessidades básicas e pela dignidade que o trabalho trazia.

Hoje, segundo a visão do Eduardo, isto pouco conta para os jovens trabalhadores. A pouca diferença de idade para com seus pais lhes dá a certeza de encontrar alguma comida na geladeira, roupas no armário e o controle remoto da TV sobre a estante. Tudo está à distancia de um “clique”.

Estudar é obrigatório. Mas é possível ficar “de boa”, porque o Google tem tudo. Ctrl C + Ctrl V resolve qualquer problema.

O desafio de vencer restringe-se ao acesso a novos vídeo games lançados para uma geração cuja visão de futuro não ultrapassa trinta dias – tempo, aliás, longo demais frente à velocidade das inovações tecnológicas.

Respeito? Nem aos pais. A televisão formou sua opinião enquanto os pais não tiveram tempo para educá-los. A babá, mãe substituta de muitos, fez-lhes pensar que ganhar o suficiente para viver é fácil e rápido, num mundo colorido e glamouroso, onde o mocinho sofre e o bandido nem sempre se dá mal. Vale tudo para esta geração BBB.

Como encarar esta realidade? Talvez a resposta esteja num estudo mais aprofundado dos programas sociais que parecem competir com o trabalho.

O contraste de ideias e princípios já é gritante. Enquanto isso, mão de obra que é bom e todo mundo precisa, não tem. Produzir novos atrativos resolve? Uma nova CLT? Valorizar os talentos na ativa? Difícil. Tudo parece não funcionar.

No entanto, manter-se competitivo no mercado atual passa por estas questões ao mesmo tempo em que a economia se abre para produtos oriundos de países onde direitos trabalhistas e tributos são ridículos quando comparados aos nossos.

Eduardo conclui suas ideias com uma outra dúvida: haverá um líder capaz de resolver tamanhos impasses?

Fica mais esta pergunta junto de todas as demais para a sua reflexão.
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Abraham Shapiro é consultor e coach de líderes. Sua filosofia de trabalho, em uma só palavra, é: simplicidade. Contatos: shapiro@shapiro.com.br ou (43) 8814 1473

terça-feira, fevereiro 15, 2011

VOCÊ TEM POTENCIAL?

Esta é uma pergunta que líderes em sua empresa estão sempre fazendo sobre você — ainda que não admitam. Veja como fazer com que a resposta seja “sim”.


Douglas A. Ready, Jay A. Conger e Linda A. Hill

Certos funcionários são mais talentosos do que outros — um fato da vida organizacional que poucos executivos e gerentes de RH questionariam. Uma questão mais polêmica é como tratar indivíduos que parecem ter o maior potencial. Quem é contra o tratamento especial argumenta que todo trabalhador é talentoso de alguma maneira e que, portanto, todo mundo deveria ter igual oportunidade de crescer. Por essa tese, dedicar um volume desproporcional de energia e recursos a um grupinho seleto poderia levá-lo a ignorar a potencial contribuição dos demais. Mas a divergência não para aí. Certos executivos dizem que a lista de gente de alto potencial de uma empresa — e o processo de montá-la — deve ser um segredo muito bem guardado; afinal, por que desmotivar os cerca de 95% que não entraram na lista?

Passamos os últimos 15 a 20 anos estudando programas para líderes de alto potencial. Mais recentemente, fizemos um levantamento em 45 empresas do mundo todo para saber como identificam e desenvolvem esses indivíduos. Na esteira, entrevistamos executivos de RH de uma dezena delas para entender melhor a experiência proporcionada ao pessoal de alto potencial e critérios para inclusão e permanência na lista. Com base na informação colhida de líderes de RH, fomos entrevistar gerentes identificados como astros em ascensão.

Nosso estudo deixa patente que listas de talentos de alto potencial existem, sim — ainda que a empresa não admita e independentemente de o processo de desenvolvimento ser formal ou informal. Das empresas estudadas, 98% disseram identificar deliberadamente gente de alto potencial. Sobretudo quando os recursos são limitados, há uma atenção desproporcional ao cultivo daqueles que, a seu ver, conduzirão a organização ao futuro.

A essa altura, o leitor deve estar se perguntando como entrar — e perma­ne­cer — na lista de gente de alto potencial da empresa. Este artigo pode ajudá-lo a começar a achar a resposta. Encare-o como uma carta aos milhões de funcionários inteligentes, competentes, trabalhadores e de confiança que estão avançando na carreira com certo grau de satisfação mas que ainda se perguntam como chegar aonde realmente querem. Veremos quais os atributos específicos de gestores que, segundo suas empresas, passaram no teste.


A anatomia do indivíduo de alto potencial

Comecemos com nossa definição de um funcionário de alto potencial. Sua empresa pode ter uma definição distinta ou até não distinguir oficialmente gente de alto potencial de outros indivíduos. Nosso trabalho mostra, no entanto, que a empresa tende a pensar em seus maiores talentos (os 3% a 5% no topo) nos seguintes termos:

“Indivíduos de alto potencial superam os pares de forma reiterada e significativa em uma série de cenários e circunstâncias. Não só registram níveis superiores de desempenho, mas também exibem um comportamento que reflete a cultura e os valores da empresa de forma exemplar. Além disso, mostram uma forte capacidade de crescer e ter sucesso ao longo da carreira dentro de uma organização — e de forma mais rápida e eficaz do que seus pares”.




Essa é a anatomia básica de gente de alto potencial. O ingresso nesse grupo de elite começa com três elementos essenciais.

 Produzir fortes resultados — com credibilidade. Bater suas metas é importante, mas não basta. Ninguém entrará para uma lista de gente de alto potencial se não se destacar no que faz ou se seus resultados vierem à custa dos outros. Competência é o atributo básico para o alto desempenho. Mas também é preciso provar sua credibilidade. Isso significa conquistar a confiança dos colegas para, com isso, poder influenciar uma vasta gama de interessados.

Vejamos o caso de Jackie Goodwin, executiva de um banco citada pelo departamento de RH como de alto potencial. Jackie começou na divisão de seguros, mas quis ir para a área bancária, onde enxergava uma carreira com mais espaço para crescer. Seus dotes na gestão geral eram valorizadíssimos. Além disso, tinha uma trajetória comprovada em serviços financeiros na área de seguros. O fato de que o braço bancário buscava sangue novo e a falta de planejamento sucessório na região a deixaram em boa posição como candidata de fora. Aliás, seu currículo era tão sólido quanto — ou mais, até — do que o de candidatos internos.

Quando lhe ofereceram um cargo bem mais alto na divisão bancária — uma promoção a vice-presidente e diretora regional de operações na Alemanha, a segunda maior filial europeia do banco —, Jackie aceitou, ainda que o vento não soprasse a seu favor. Ninguém ali a conhecia, e Jackie pouco entendia da atividade bancária. Para piorar, fora imposta ao cabeça regional, que queria alguém experiente. Seu maior desafio era conquistar credibilidade. Já que a equipe alemã estava habituada a agir com independência, Jackie percebeu que malograria se não pudesse conseguir seu apoio.

Jackie resolveu que ajudar os novos colegas seria uma prioridade. Nas primeiras três semanas, teve conversas com dezenas de gerentes e admitiu abertamente que sua curva de aprendizado seria íngreme. Também buscou conseguir pequenas vitórias em questões que há muito incomodavam. Desdobrou-se, por exemplo, para simplificar o processo de abertura de novas contas. Quanto ao chefe cético, buscou aliviar o máximo possível seu fardo. Vinha e perguntava: “Que assuntos demorados você gostaria de ver resolvidos no prazo de 90 dias?”. Em seguida, arregaçava as mangas. Já que o chefe não gostava de confronto, por exemplo, Jackie cuidava de assuntos que podiam criar conflito, como reformular processos de planejamento e estabelecer direitos de decisão. Ganhou a fama de solucionadora de problemas e sua influência cresceu sem parar. Hoje, Jackie é diretora da carteira de crédito comercial do banco e ainda é considerada uma estrela em ascensão.







Dominar novos conhecimentos. Para se fazer notar no começo da carreira, é preciso aquirir a tarimba técnica que o trabalho exige. À medida que vai progredindo, a pessoa precisa ampliar esse conhecimento. Para começar, dirige outra pessoa ou um pequeno grupo, passando em seguida para equipes e posições maiores (na matriz, por exemplo) que exijam que exerça influência mesmo tendo autoridade formal limitada. Em postos mais elevados, a excelência técnica pode valer menos do que a capacidade de raciocínio estratégico e de motivar. A certa altura, o desafio é tanto abrir mão de certas coisas como de acrescentar outras. Não tente, por exemplo, ser a um só tempo o melhor engenheiro e o melhor líder da equipe de projetos.

Há quem precise levar um tombo para aprender a lição. Um engenheiro de software excepcionalmente talentoso, que chamaremos de Luke, recebera muito aplauso durante uma carreira relativamente curta. Confiantes em seu potencial, os chefes o colocaram no comando de uma equipe que criaria uma extensão do produto com potencial para atrair uma nova categoria de usuários. Luke era estimado e de bom grado aceitou o desafio, mas não percebeu que tarimba técnica por si só não bastaria. Depois de perder vários prazos, executivos da empresa criaram um posto de “especialista” sênior para o rapaz — de modo a não desmoralizá-lo. No comando, colocaram outro sujeito tecnicamente qualificado e experiente também na gestão de projetos. Luke saiu da lista de gente de alto potencial. Teve uma carreira de relativo destaque como especialista técnico, mas não num papel de liderança de projetos.

Reconhecer que o comportamento conta. Embora o desempenho faça com que se destaque e seja promovido no início da carreira, é seu comportamento que o mantém no radar como alguém de alto potencial. Embora habilidades superiores nunca percam importância, isso passa a ser esperado, pois a pessoa precisa se destacar em papéis com maior alcance. Candidatos ao cobiçado rótulo de “alto potencial” precisam mostrar que seu comportamento mudou: de “adequação e filiação” para “modelo de conduta e mestre”.

A ascensão do gerente geral Phil Nolan à ala executiva da empresa — uma líder de mercado em produtos de lavanderia — se deveu em grande parte a suas qualidades como modelo de conduta. Phil foi destacado para cuidar do principal produto da empresa, um sabão líquido cujas vendas há anos vinham em queda. Dois gerentes de marketing de alta visibilidade tinham tido a oportunidade de revigorar as vendas do produto. Ambos tinham testado — em vão — táticas de redução de preço. Agora, era a vez de Phil. Mas, com um forte currículo no desenvolvimento de produtos, e não em marketing, o gerente era o azarão.

Por sorte, a direção da empresa viu mais em Phil — que, antes disso, promovera relações de cooperação e trabalho em equipe para reerguer um problemático grupo de desenvolvimento de produtos. Pela tremenda confiança que inspirava, conseguia travar conversas muito francas com o pessoal sobre os desafios do negócio. Como resultado, era capaz de chegar ao cerne de um problema rapidamente e achar soluções viáveis. Phil não só sabia como motivar os outros, mas também tinha um olhar aguçado para captar padrões e uma impressionante visão estratégica. Aplicou isso tudo à nova missão.

No primeiro ano na nova função, Phil levou a equipe a aumentar as vendas do produto em 30%. Na entrevista que fizemos com a executiva de RH da empresa, esta destacou a capacidade de Phil de conquistar os outros: “Embora hoje seja o rosto público da marca, há certa humildade nele. O Phil ajuda os colegas a se darem bem, em vez de ameaçá-los. É um exemplo para a organização”.




A cabeça de alguém de alto potencial

Você está fazendo tudo certo. Está gerando valor e dando resultados desde cedo. Está dominando novas áreas de atuação ao enfrentar desafios cada vez mais complexos. Respeita a cultura e os valores da organização. Irradia confiança e conquistou o respeito dos outros. É possível que esteja trabalhando umas 50 horas por semana e recebendo excelentes avaliações. Ainda assim, não é visto como alguém de alto potencial.

Pode ser revoltante, pois os verdadeiros diferenciais — o que chamamos de “fatores X” — são bem intangíveis e em geral não figuram em listas de competências de liderança ou formulários de avaliação de desempenho. Eis esses fatores, que podem fazer pender a balança e ajudá-lo a conquistar e manter o cobiçado rótulo de alguém de alto potencial.

Fator X 1 Desejo de superação. Um indivíduo de alto potencial não é só alguém que se destaca. Sua meta é ter sucesso. Ser bom (até muito bom) não basta. De jeito nenhum. É alguém mais disposto a fazer um esforço adicional, alguém que sabe que pode ter de fazer sacrifícios na vida pessoal para subir. Embora isso não signifique que não seja fiel a seus valores, a ambição nua e crua pode levar essa pessoa a fazer escolhas bastante difíceis.

Fator X 2 Capacidade catalítica de aprendizado. É comum pensarmos na pessoa de alto potencial como alguém que está sempre aprendendo — mas muita gente aprende constantemente, porém não é voltada à ação ou a resultados. Indivíduos de alto potencial com quem travamos contato possuem o que chamamos de “capacidade catalítica de aprendizado”. É gente que sabe buscar novas ideias, tem a capacidade cognitiva para absorvê-las e senso comum para traduzir o novo conhecimento em ação produtiva para clientes e para a organização.

Fator X 3 Espírito empreendedor. Gente de alto potencial está sempre buscando saídas produtivas para abrir novos caminhos. São exploradores e, como tal, assumem o desafio de sair periodicamente da zona de conforto profissional a fim de avançar. Para tanto, podem ter de se arriscar: aceitar um projeto difícil no exterior, por exemplo, ou mudar para uma área da empresa que exija toda uma nova série de habilidades. Dado o desejo de se superar dessa pessoa, seria de imaginar que relutaria em correr tal risco. Mas a maioria parece achar que vantagens — a emoção e a oportunidade — superam os riscos.

Fator X 4 Sensores dinâmicos. Desejo de superação e um espírito empreendedor, somados à vontade de achar novas abordagens, podem, na prática, ser a receita para o desastre profissional. Um indivíduo de alto potencial pode perder o rumo por uma série de razões. Pode, por exemplo, ser tentado a aceitar impulsivamente algo que parece uma tremenda oportunidade — só para descobrir que o posto pouco exige (não é desafiante) ou que não trará vantagem para a carreira a longo prazo. A pessoa também pode sair dos trilhos pelo desejo de agradar. Gente de alto potencial talvez evite divergir abertamente do chefe ou dar um feedback franco e, quem sabe, decepcionante a um colega. Já gente promissora que se dá bem tem um radar bem calibrado que atribui mais valor a resultados de alta qualidade.

Além de critério, a pessoa de alto potencial tem o que chamamos de “sensores dinâmicos”. Com isso, evita esses riscos — ainda que por pouco. Sabe a hora certa de agir, sabe interpretar rapidamente uma situação, tem faro para oportunidades. Seu espírito empreendedor poderia levá-la a tomar decisões insensatas, mas esses sensores a ajudam a decidir, por exemplo, quando investir em algo e quando recuar. O indivíduo de alto potencial tem o dom especial de estar no lugar certo na hora certa.




Um caso exemplar e seus fatores X

Um dos muitos profissionais de alto potencial que conhecemos foi Vineet Kapoor, descrito como astro em ascensão pelos chefes na suíça Synthes. Com faturamento de mais de US$ 3 bilhões, a empresa fabrica e comercializa próteses e biomateriais utilizados em cirurgias e regeneração de ossos e tecidos moles.

Quando estudante, bem antes de entrar na Synthes, Vineet queria dedicar-se à ciência; tinha o sonho de melhorar a vida de gente em economias emergentes como a Índia. Essa visão básica seguiu com ele, mas sua carreira tomou um rumo inesperado. Para surpresa dos colegas, Vineet foi trabalhar na área contábil depois da faculdade: queria adquirir um conhecimento de finanças que fosse útil em qualquer profissão. Entrou na firma indiana de auditoria A.F. Ferguson, que tinha uma importante carteira de clientes (e acabou sendo comprada pela Deloitte em 2004). Depois, foi para a Arthur Andersen (que se fundiu à Ernst & Young) e, a certa altura, para a KPMG em Gurgaon, Índia; seu chefe nesse então dirigia as operações no país. Essa mudança a princípio derrubou o salário de Vineet, mas foi outra oportunidade para que aprendesse mais sobre como criar um negócio.

Vineet falou de oportunidades interessantes abertas durante sua carreira como consultor; quando a lei americana Sarbanes-Oxley entrou em vigor nos EUA, em 2002, havia clientes batendo a sua porta. Embora prometesse uma bela remuneração, o trabalho de adaptar empresas à lei não casava com suas prioridades: aprender e promover mudanças positivas e de grande escala em países emergentes. Por isso Vineet foi para a Synthes, onde seus fatores X se tornaram totalmente evidentes.

Desejo de superação. Uma sede de sucesso pode levar certas pessoas ao limite. O segredo é canalizar o instinto. Vineet, por exemplo, decidiu que deveria sempre pensar como alguém um nível acima dele. Embora isso significasse fazer muitas perguntas — às vezes, para a consternação de colegas e chefes —, esse interrogatório incessante era temperado com um desejo insaciável de mostrar resultados. Ninguém poria em dúvida seu compromisso com o trabalho e a empresa, e a ambição de Vineet não era uma questão de triunfo pessoal. Aliás, como diretor da empresa na Índia, criou um livro de 150 páginas festejando a contribuição de colegas e destacando seus valores comuns. O tomo virou uma espécie de manual para a filial indiana da Synthes; para o pessoal, era esclarecedor. Foi tão comentado que profissionais que tinham deixado a empresa voltaram porque a organização fora energizada pelo livro.

O que mais motivava Vineet não era o desejo de subir na hierarquia — o que o movia era sua aspiração original. Daí ter redigido um plano de negócios de 85 páginas que incluía o projeto de levar ensino de primeira a todo cirurgião indiano, incluindo os localizados em zonas remotas. Segundo o presidente da Synthes, o plano mudou o modo como a empresa encara a Índia.


Capacidade catalítica de aprendizado. Ao viajar aos EUA para uma reunião de estratégia da Synthes, Vineet esticou a estada para poder observar os vendedores americanos em ação. Nesse tempo, foi com eles a dezenas de visitas de vendas. Tendo captado a atenção do presidente com sua estratégia de crescimento, Vineet achou que a empresa só seria capaz de executá-la se contasse com a ajuda de mais gente — e gente diferente. Pegou o que aprendera com a equipe de vendas nos EUA e criou um novo perfil de competências para os vendedores na Índia — perfil que destacava o empreendedorismo, atributo que, a seu ver, seria crucial para que a promessa do mercado indiano se cumprisse.

Espírito empreendedor. Para Vineet, um dos aspectos mais difíceis do crescimento na carreira foi sair da zona de conforto, tanto profissional quanto pessoalmente. Recusou várias oportunidades, incluindo uma que teria exigido a mudança para os EUA. Em certo momento, no entanto, aceitou o posto de diretor de iniciativas estratégicas para a região da Ásia−Pacífico, o que o obrigou a trocar a Índia por Cingapura. Para se preparar, Vineet passou um ano correndo o mundo: ficou parte do tempo na filial americana e o resto, na sede europeia na Suíça. Teve de adaptar seu estilo pessoal e criar novas estratégias. Sabia como conduzir uma equipe como “country manager”, mas ajudar outros executivos nesse mesmo posto a atingir sua visão era difícil. Vineet adorava tocar as próprias operações e ter responsabilidade pelos resultados; no novo cargo, tinha de exercer um papel coadjuvante e usar de influência, e não de controle direto, para dar cabo das coisas.

Sensores dinâmicos. Um indivíduo de alto potencial pode atrair rancor e inveja, além de admiração — e tudo isso pode ser fonte de estresse. Quem realmente é de alto potencial entende esse fato e busca reduzir a animosidade. Vineet sem dúvida se importava com a imagem que faziam dele. Tinha 29 anos quando lhe ofereceram o cargo de country manager na Índia — e cogitou recusar a oferta porque achava que os outros poderiam considerá-lo jovem ou inexperiente demais. Essa consciência da percepção alheia é um atributo definidor de alguém de grande potencial.


Desenvolva seus fatores X

Além de não aparecer em modelos de competências de liderança, os fatores X de um indivíduo de alto potencial são difíceis de ensinar e aprender, sobretudo em sala de aula. É possível, no entanto, aumentar suas chances de desenvolver seus fatores X.

Descobrir em que pontos você deixa a desejar é o primeiro passo. Se for reiteradamente pego de surpresa por acontecimentos, por exemplo, é bem provável que seus sensores dinâmicos não sejam muito fortes. Certas pessoas estão mais sintonizadas com o entorno do que outras, mas é possível melhorar o radar com medidas simples como ouvir os outros mais atentamente, observar suas reações ao que você diz e atualizar sua rede de relacionamentos para ficar em maior sintonia com novos negócios e mercados nos quais a empresa aposta.

O aprendizado catalítico exige um interesse na ação, não só no aprendizado. Aprender sem alterar seu comportamento é uma oportunidade jogada fora. Pode ser difícil adquirir mais desejo de superação ou um espírito empreendedor, mas com alguma reflexão você pode começar a ser mais proativo ou assumir um pouco mais de riscos. Isso tudo deixa clara a importância de investir tempo e energia na autorreflexão. Também é preciso reconhecer o valor de buscar conselhos de um coach ou mentor — e de descobrir onde a ajuda de um conselheiro termina e sua independência começa.




Rótulo de alto potencial tem suas desvantagens

É maravilhoso ser reconhecido por seus dotes e por sua possível contribuição para o futuro da empresa, mas o rótulo de alto potencial tem um preço. Para começar, não há garantias: qualquer um pode ser excluído da lista. Há quem se retire voluntariamente ou por omissão, por não ter tempo ou paixão para seguir esse caminho. Praticamente toda empresa que ouvimos indicou que a permanência na lista não é garantida; descobrimos que, a cada ano, de 5% a 20% dos indivíduos de alto potencial perdem esse status, por escolha ou não.

Entre as razões para a exclusão de alguém da lista de gente de alto potencial estão uma transição insatisfatória para uma nova função, desempenho ruim por dois anos seguidos, conduta em conflito com a cultura e os valores da empresa e fracasso claro e considerável. Em nossa pesquisa, vimos um caso dramático de queda das alturas. Foi protagonizado por uma executiva que chamaremos de Marta, à época considerada para o cargo de diretora de tecnologia de uma grande empresa de serviços financeiros.

Marta tinha alto potencial, era extremamente brilhante, tinha excelente qualificação técnica. Mas sua inteligência acabou atrapalhando. Não queria “perder tempo” falando com gente igualmente graduada cujos clientes precisavam de novos aplicativos. Tinha sempre “a resposta certa”, fosse ou não adequada às necessidades e expectativas de clientes. Seus sensores dinâmicos e sua capacidade catalítica de aprendizado eram nulos. Era inteligente, mas não sábia, e todo esforço para orientá-la foi em vão. Marta era boa demais para ser demitida, mas foi excluída da rota de sucessão, o que no final lhe custou uma remuneração de milhões, possivelmente. Dirigiu o projeto do ponto de vista técnico, mas sua carreira basicamente estancou.

Ser escolhido para receber atenção adicional no sentido de se desenvolver também pode implicar sacrifícios na vida pessoal. Há quem adore estar sempre mudando de função, mas para alguns isso traz muita ansiedade, para não dizer escolhas difíceis (ligadas à família ou não). As expectativas em relação a essa pessoa são altas — e colegas que não estão na lista podem intimamente (talvez inconscientemente) desejar seu fracasso, ou se ressentir o bastante para torcer por sua queda.

Ser incluído numa lista de gente de alto potencial pode ser uma considerável oportunidade de crescimento. Logo, não é nossa intenção desencorajar grandes gestores interessados em entrar nela. Contudo, é preciso descobrir não só como entrar na lista, mas por que esse desejo em primeiro lugar. E isso exige reflexão. Você está pronto para ser rotulado como alguém de alto potencial? É o que realmente quer? Se for, a recompensa pode ser imensa; se não, busque outras maneiras de investir em suas paixões. Seja qual for a resposta, não esqueça: o desempenho sempre conta; à medida que for crescendo, seu comportamento fica mais e mais importante; e os fatores X são sua arma secreta.
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Douglas A. Ready (dready@icedr.org) é professor-visitante de comportamento organizacional na London Business School, no Reino Unido, e fundador e presidente do ICEDR, centro global de pesquisa em gestão de talentos nos EUA. Jay A. Conger é titular da cátedra Henry R. Kravis Research Professor in Leadership Studies na Claremont McKenna College, nos EUA, e professor-visitante de comportamento organizacional na London Business School. Linda A. Hill é titular da cátedra Wallace Brett Donham Professor of Business Administration na Harvard Business School, nos EUA.


segunda-feira, fevereiro 14, 2011

LOUCURA OU AUTO ENGANO?

Artigo publicado no jornal FOLHA DE LONDRINA, em 14/02/2011, na coluna ABRAHAM SHAPIRO, em Empregos e Concursos

ABRAHAM SHAPIRO

Uma das definições de loucura é “fazer as coisas sempre da mesma maneira esperando alcançar resultado diferente”.

Um leitor chamado Rodrigo enviou um e-mail com a seguinte pergunta: “Sr Shapiro. O que eu devo fazer para reduzir a minha conta de telefone celular? Está altíssima. Não sei o que fazer”.

A pergunta do Rodrigo é realmente muito boa. Todo mundo sabe o que é mais comum fazer nestas circunstâncias. Eu fui conferir de perto como as pessoas pensam e fiz a mesma pergunta ao funcionário de uma empresa em que dou consultoria. A resposta veio na velocidade de um carro de Fórmula 1: “Quebro o contrato com a operadora atual, faço um novo plano com outra operadora, e saio de lá pagando menos”. E eu completei: “Pagando, não! Achando que irá pagar menos”.

De acordo com o conceito que propusemos acima, isto é loucura.

Por este caminho, o nosso amigo Rodrigo só irá conseguir diminuir sua conta se a nova operadora lhe oferecer um grande desconto para um número ilimitado de chamadas, ou, quem sabe, um plano 100% gratuito.

O que muitos ignoram é que em geral as operadoras telefônicas cobram preço de mercado pelos serviços que prestam. No médio prazo, todas as propostas que vemos e ouvimos nas propagandas acabam custando o mesmo para um usuário que supere determinados níveis de uso.

Portanto, a opção de troca de operadora não é uma alternativa plausível e muito menos lógica. Trazendo o problema para o âmbito pessoal, se quiser que a conta diminua eu é que tenho que mudar meu comportamento quanto ao uso do celular. Acabar com a compulsão de uso é uma das ações urgentes a ser implementada. E inteligente também. Isto sim resolverá o problema da conta. Quase tudo mais será paliativo ou inócuo.

O triste é que este defeito de conduta não ocorre só com o uso do celular. Ele se apresenta nos negócios, nos relacionamentos, nos cuidados com a saúde, alimentação etc. Eu confesso publicamente que o cometo em muitas áreas da minha vida e agora até me envergonho disso. Mas minha confissão não muda meu erro. Só se eu agir em contrário e retificar minha atitude.

Enquanto as mudanças não ocorrem dentro de nós, continuamos a fazer tudo igual, sem qualquer sentido ou razão. Os resultados serão sempre os mesmos, e talvez continuemos a pensar que a culpa é de todo mundo, exceto nossa.

Diante disso, só nos resta fazer: “bilu-bilu”, porque estamos, de fato, loucos!
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Abraham Shapiro é consultor e coach de líderes. Sua filosofia de trabalho, em uma só palavra, é: simplicidade. Contatos: shapiro@shapiro.com.br ou (43) 8814 1473

domingo, fevereiro 13, 2011

COMO REINVENTAR O CAPITALISMO

O capitalismo está sitiado…. A queda na confiança em empresas está levando legisladores a soltar normas que inibem o crescimento econômico…. O meio empresarial caiu num círculo vicioso…. O novo propósito da empresa deve ser a criação de valor compartilhado.

Michael E. Porter e Mark R. Kramer

O sistema capitalista está sitiado. Nos últimos anos, a atividade empresarial foi cada vez mais vista como uma das principais causas de problemas sociais, ambientais e econômicos. É generalizada a percepção de que a empresa prospera à custa da comunidade que a cerca.

Para piorar, quanto mais adotou a responsabilidade empresarial, mais a empresa foi sendo responsabilizada pelos problemas da sociedade. Em certos países, a legitimidade da atividade empresarial caiu a níveis inéditos na história recente. Essa queda na confiança leva lideranças políticas a instituir normas que minam a competitividade e inibem o crescimento econômico. O meio empresarial entrou num círculo vicioso.

Grande parte do problema está nas empresas em si, que continuam presas a uma abordagem à geração de valor surgida nas últimas décadas e já ultrapassada. Continuam a ver a geração de valor de forma tacanha, otimizando o desempenho financeiro de curto prazo numa bolha e, ao mesmo tempo, ignorando as necessidades mais importantes do cliente e influências maiores que determinam seu sucesso a longo prazo. Só isso explica que ignorem o bem-estar de clientes, o esgotamento de recursos naturais vitais para sua atividade, a viabilidade de fornecedores cruciais ou problemas econômicos das comunidades nas quais produzem e vendem. Só isso explica que achem que a mera transferência de atividades para lugares com salários cada vez menores seria uma “solução” sustentável para desafios de concorrência. O governo e a sociedade civil não raro exacerbam o problema ao tentar corrigir deficiências sociais à custa da empresa. Os supostos trade-offs entre eficiência econômica e progresso social foram institucionalizados em décadas de políticas públicas.

A empresa deve liderar a campanha para voltar a unir a atividade empresarial e a sociedade. Líderes empresariais e intelectuais sofisticados já sabem disso; começam a surgir elementos promissores de um novo modelo. Ainda não temos, no entanto, um marco geral para nortear essa iniciativa — e a maioria das empresas continua presa a uma mentalidade de “responsabilidade social” na qual questões sociais estão na periferia, não no centro.

A solução está no princípio do valor compartilhado, que envolve a geração de valor econômico de forma a criar também valor para a sociedade (com o enfrentamento de suas necessidades e desafios). É preciso reconectar o sucesso da empresa ao progresso social. Valor compartilhado não é responsabilidade social, filantropia ou mesmo sustentabilidade, mas uma nova forma de obter sucesso econômico. Não é algo na periferia daquilo que a empresa faz, mas no centro. E, a nosso ver, pode desencadear a próxima grande transformação no pensamento administrativo.

Um número crescente de empresas conhecidas pela abordagem pragmática aos negócios — nomes como GE, Google, IBM, Intel, Johnson & Johnson, Nestlé, Unilever e Walmart — já embarcou em iniciativas importantes para gerar valor compartilhado ao redefinir a interseção entre sociedade e desempenho empresarial. Contudo, o reconhecimento do poder transformador do valor compartilhado ainda é incipiente. Para que se materialize, líderes e gerentes terão de adquirir novas habilidades e conhecimentos — como, por exemplo, uma apreciação muito mais profunda das necessidades da sociedade, uma maior compreensão das verdadeiras bases da produtividade da empresa e a capacidade de transpor a fronteira entre as esferas com e sem fins de lucro para colaborar. Já o poder público precisa aprender a regular de modo a fomentar — e não obstruir — o valor compartilhado.




O capitalismo é um veículo inigualável para a satisfação das necessidades humanas, o aumento da eficiência, a criação de emprego e a geração de riqueza. Só que uma concepção estreita do capitalismo impediu que a atividade empresarial explorasse todo seu potencial para enfrentar os grandes desafios da sociedade. As oportunidades sempre estiveram aí, mas foram negligenciadas. Uma empresa atuando como empresa, não como um ente filantrópico, é o agente mais forte para lidar com as prementes questões a nossa frente. O momento para uma nova concepção do capitalismo é agora; as necessidades da sociedade são grandes e seguem crescendo. Já clientes, trabalhadores e uma nova geração de jovens estão pedindo que o meio empresarial tome a dianteira.

O propósito da empresa deve ser redefinido como o da geração de valor compartilhado, não só o do lucro por si só. Isso alimentará a próxima onda de inovação e crescimento da produtividade na economia global. Também irá redefinir o capitalismo e sua relação com a sociedade. E aprender a gerar valor compartilhado talvez seja a melhor oportunidade a nosso dispor para legitimar de novo a atividade empresarial.

Além dos trade-offs

O antagonismo entre a atividade empresarial e a sociedade é de longa data. É assim, em parte, porque economistas legitimaram a ideia de que, para beneficiar a sociedade, a empresa deve moderar seu sucesso econômico. No ideário neoclássico, a necessidade de progresso social — como a segurança ou a contratação de deficientes — impõe limites à atividade empresarial. Acrescentar alguma limitação a uma empresa que já está maximizando lucros, reza a teoria, inevitavelmente aumentará custos e reduzirá tal lucro.

Um conceito correlato, com a mesma conclusão, é a noção de externalidades. Surgem externalidades quando a empresa gera custos sociais com os quais não precisa arcar, como a poluição. Logo, a sociedade deve impor impostos, normas e sanções para que a empresa “internalize” essas externalidades — crença que influencia muitas políticas públicas.

Essa perspectiva também moldou a estratégia das próprias empresas, que basicamente excluíram considerações sociais e ambientais de seu raciocínio econômico. A empresa tomou como dado o contexto maior no qual opera e resistiu a padrões regulamentares como invariavelmente contrários a seus interesses. A solução de problemas sociais foi entregue a governos e a ONGs. Programas de responsabilidade empresarial — uma reação a pressões externas — surgiram basicamente para melhorar a reputação da empresa e são tratados como um gasto necessário. Tudo o mais é visto por muitos como um uso irresponsável do dinheiro de acionistas. O poder público, por sua vez, não raro regula de modo a dificultar a geração de valor compartilhado. Implicitamente, cada lado assume que o outro é um obstáculo a suas metas e age como se fosse.

O conceito de valor compartilhado, em contrapartida, reconhece que as necessidades da sociedade, e não só necessidades econômicas convencionais, definem o mercado. Reconhece, ainda, que mazelas ou deficiências sociais volta e meia criam custos internos para a empresa — como o desperdício de energia ou matéria-prima, acidentes onerosos e necessidade de treinamento corretivo para compensar insuficiências na educação. O enfrentamento de mazelas e limitações da sociedade não eleva necessariamente o custo da empresa, pois esta pode inovar com o emprego de novas tecnologias, métodos, operações e abordagens de gestão — e, como resultado, aumentar a produtividade e expandir seus mercados.

O valor compartilhado, portanto, não tem a ver com valores pessoais. Nem tem a ver com a “partilha” do valor já gerado pela empresa — uma abordagem de redistribuição. Trata-se, antes, de aumentar o bolo total do valor econômico e social. Um bom exemplo dessa diferença de perspectiva é o movimento “fair trade” no comércio. A meta do fair trade é aumentar a parcela de receita que vai para agricultores de baixa renda com o pagamento de um preço mais elevado pelos mesmos produtos. Embora o sentimento possa ser nobre, o comércio justo tem a ver basicamente com redistribuição, não com a expansão do bolo total de valor gerado. Já a perspectiva do valor compartilhado se concentra em melhorar técnicas de cultivo e fortalecer o cluster local de fornecedores e outras instituições de apoio, a fim de aumentar a eficiência, o rendimento, a qualidade e a sustentabilidade das lavouras. Isso leva a um bolo maior de receita e lucro que beneficia tanto o lavrador como a empresa que compra dele. Estudos iniciais de plantadores de cacau na Costa do Marfim, por exemplo, sugerem que, enquanto o comércio justo pode elevar em 10% a 20% a renda do agricultor, investimentos de valor compartilhado podem aumentar essa renda em mais de 300%. Talvez sejam necessários tempo e um investimento inicial para a implementação de novas práticas de compras e o desenvolvimento do cluster de apoio, mas o retorno será um valor econômico maior e maiores benefícios estratégicos para todos os envolvidos.




Raízes do valor compartilhado

Num nível muito básico, a competitividade de uma empresa e a saúde das comunidades a seu redor estão intimamente interligadas. Uma empresa precisa de uma comunidade vicejante não só para gerar demanda para seus produtos, mas também para suprir ativos públicos essenciais e um ambiente favorável. Uma comunidade precisa de empresas prósperas para criar empregos e oportunidades de geração de riqueza para seus cidadãos. Essa interdependência significa que políticas públicas que solapem a produtividade e a competitividade de empresas são autodestrutivas, sobretudo numa economia globalizada, na qual instalações e empregos podem facilmente rumar para outro lugar. ONGs e governos nem sempre entenderam essa ligação.

Na velha e estreita visão do capitalismo, a empresa contribui para a sociedade ao dar lucro, o que sustenta emprego, salários, consumo, investimentos e impostos. Tocar a empresa como sempre seria um benefício social suficiente. A empresa é, em grande medida, um ente autossuficiente, e questões sociais ou comunitárias estão fora de sua alçada (essa é a tese convincentemente defendida por Milton Friedman em sua crítica à noção da responsabilidade social empresarial).

Essa perspectiva permeou o pensamento administrativo nas duas últimas décadas. A empresa se concentrou em incitar o consumidor a comprar mais e mais de seus produtos. Diante da crescente concorrência e da pressão de acionistas por resultados de curto prazo, gestores recorreram a ondas de reestruturação, corte de pessoal e transferência para regiões de menor custo, alavancando paralelamente o balanço para devolver capital aos investidores. O resultado em geral foi comoditização, disputa em preços, pouca inovação de verdade, crescimento orgânico lento e nenhuma vantagem competitiva clara.

Nesse tipo de competição, as comunidades nas quais a empresa opera sentem que pouco ganham, ainda que os lucros subam. O que sentem, isso sim, é que o lucro se dá a sua custa, impressão que se tornou ainda mais forte na atual recuperação econômica em certos países, na qual lucros crescentes pouco fizeram para compensar o elevado desemprego, a crise em negócios locais e severas pressões sobre os serviços da comunidade.

Nem sempre foi assim. No passado, as melhores empresas assumiam uma ampla gama de papéis para atender às necessidades de trabalhadores, comunidades e operações de apoio. À medida que outras instituições sociais entraram em cena, contudo, esses papéis foram abandonados ou delegados. O horizonte de tempo cada vez menor do investidor começou a estreitar o raciocínio sobre investimentos pertinentes. Com a empresa verticalmente integrada dando lugar a uma maior dependência de fornecedores externos, a terceirização e o offshoring enfraqueceram o elo entre a empresa e a comunidade. Ao distribuir toda sorte de atividade por mais e mais localidades, a empresa não raro perdeu o vínculo com um determinado lugar. Aliás, muitas empresas já não consideram ter uma “casa” — se julgam, antes, “globais”.

Essas transformações levaram a grandes avanços em matéria de eficiência econômica. No entanto, algo profundamente importante se perdeu no processo, à medida que oportunidades mais fundamentais de geração de valor foram ignoradas. O escopo do raciocínio estratégico se contraiu.

Reza a teoria da estratégia que, para ser bem-sucedida, uma empresa precisa criar uma proposta de valor diferenciada que atenda às necessidades de um conjunto visado de clientes. A empresa obtém vantagem competitiva pelo modo como configura a cadeia de valor, ou a série de atividades envolvidas na criação, produção, venda, entrega e suporte de seus produtos ou serviços. Há décadas administradores estudam o posicionamento e a melhor maneira de projetar atividades e integrá-las. Contudo, a empresa deixou passar oportunidades para satisfazer necessidades fundamentais da sociedade e não soube entender o impacto de mazelas e deficiências sociais na cadeia de valor. Nosso campo de visão simplesmente foi muito estreito.

Ao tratar de entender o ambiente de negócios, o gestor põe o grosso de sua atenção no setor, ou na área específica na qual a empresa compete. Isso ocorre porque a estrutura do setor tem um impacto decisivo sobre a rentabilidade de uma empresa. O que passou batido, no entanto, é o profundo efeito que a localização pode ter na produtividade e na inovação. A empresa não entendeu a importância do ambiente maior de negócios que cerca suas principais operações.



Como se gera valor compartilhado

Uma empresa pode criar valor econômico com a criação de valor social. Há três saídas distintas para tal: reconceber produtos e mercados, redefinir a produtividade na cadeia de valor e montar clusters setoriais de apoio nas localidades da empresa. Cada uma delas é parte do círculo virtuoso do valor compartilhado; melhorar o valor em uma área abre oportunidades nas outras.

O conceito de valor compartilhado redefine as fronteiras do capitalismo. Ao conectar melhor o sucesso da empresa com o progresso da sociedade, abre muitas maneiras de atender a novas necessidades, ganhar eficiência, criar diferenciação e expandir mercados.

A capacidade de gerar valor compartilhado existe tanto em economias avançadas como em países em desenvolvimento, embora as oportunidades específicas sejam distintas. As oportunidades também variam marcadamente entre setores e empresas distintos — mas em toda empresa há. E sua variedade e escopo são muito maiores do que o reconhecido até aqui.

Reconceber produtos e mercados

A sociedade tem necessidades imensas — saúde, melhor moradia, nutrição melhor, auxílio para o idoso, maior segurança financeira, menos danos ambientais. É justo dizer que essas são as maiores necessidades ainda não satisfeitas na economia global. No meio empresarial, passamos décadas aprendendo a analisar e a fabricar demanda — ignorando, enquanto isso, a demanda mais importante de todas. Muitas empresas deixaram de lado a mais básica das perguntas: nosso produto é bom para os clientes? Ou para os clientes de nossos clientes?

Em economias avançadas, a demanda de produtos e serviços que atendam às necessidades da sociedade vem rapidamente crescendo. Fabricantes de alimentos que tradicionalmente se concentraram em sabor e quantidade para gerar mais e mais consumo estão se reorientando para a necessidade fundamental de uma melhor nutrição. Intel e IBM estão, ambas, buscando saídas para ajudar concessionárias de serviços básicos a usar a inteligência digital para economizar energia. O banco americano Wells Fargo criou uma linha de produtos e ferramentas que ajudam o cliente a fazer um orçamento, administrar o crédito e pagar dívidas. As vendas da linha Ecomagination da GE chegaram a US$ 18 bilhões em 2009 — tamanho de uma empresa do ranking Fortune 150. A GE hoje prevê que a receita de produtos Ecomagination vá crescer ao dobro do ritmo da receita total da empresa nos próximos cinco anos.

Dessas e de muitas outras maneiras, abrem-se avenidas totalmente inéditas para a inovação, o que gera valor compartilhado. Para a sociedade, os ganhos são ainda maiores, pois em geral a iniciativa privada é muito mais eficaz do que o poder público e o terceiro setor no marketing que motiva o público a adotar produtos e serviços que criam benefícios sociais, como alimentos mais saudáveis ou produtos ecologicamente corretos.

Oportunidades iguais ou maiores surgem do trabalho com comunidades carentes e países em desenvolvimento. Embora ali as necessidades da sociedade sejam ainda mais prementes, essas comunidades ainda não foram reconhecidas como mercados viáveis. Hoje a atenção está voltada à Índia, à China e, cada vez mais, ao Brasil, que dão a empresas a possibilidade de chegar a bilhões de novos clientes na base da pirâmide — tese convincentemente articulada por C.K. Prahalad. Mas esses países sempre tiveram enormes necessidades, como tantas outras nações em desenvolvimento.

Há oportunidades semelhantes em comunidades não tradicionais em países avançados. Já sabemos, por exemplo, que zonas urbanas de baixa renda são o mercado mais subatendido dos Estados Unidos; seu considerável poder aquisitivo concentrado não raro foi ignorado (veja a pesquisa da Initiative for a Competitive Inner City no icic.org).

Os benefícios sociais da oferta de produtos adequados ao consumidor menos favorecido e de baixa renda podem ser profundos; para a empresa, o lucro pode ser considerável. Telefones celulares baratos, que dão acesso a serviços bancários via internet, estão ajudando o pobre a poupar com segurança e transformando a capacidade de pequenos agricultores de plantar e comercializar o que colhem. No Quênia, um serviço de banco por celular da Vodafone, o M-PESA, atraiu dez milhões de clientes em três anos; os fundos que administra hoje representam 11% do PIB do país. Na Índia, a Thomson Reuters criou um promissor serviço mensal para lavradores que ganham, em média, US$ 2 mil por ano. Ao custo de US$ 5 por trimestre, o serviço dá informações meteorológicas, cotação de produtos e assessoria agrícola. Chega a cerca de dois milhões de agricultores e, segundo sondagens iniciais, ajudou a elevar a renda de mais de 60% deles — em certos casos, até triplicando os rendimentos. Quando o capitalismo começa a funcionar em comunidades mais pobres, novas oportunidades para desenvolvimento econômico e progresso social aumentam exponencialmente.

Para a empresa, o ponto de partida para a geração desse tipo de valor compartilhado é identificar todas as necessidades, benefícios e mazelas sociais que estão ou poderiam estar associados aos produtos da empresa. Oportunidades não são estáticas; mudam constantemente conforme a tecnologia evolui, as economias se desenvolvem e prioridades da sociedade mudam. Uma exploração contínua das necessidades da sociedade levará a empresa a descobrir novas oportunidades de diferenciação e reposicionamento em mercados tradicionais e a reconhecer o potencial de mercados novos anteriormente ignorados.

Satisfazer necessidades em mercados subatendidos muitas vezes requer a reformulação de produtos e métodos de distribuição distintos. Isso tudo pode desencadear inovações fundamentais com aplicação também em mercados tradicionais. O microcrédito, por exemplo, foi inventado para satisfazer necessidades não atendidas de crédito em países em desenvolvimento. Hoje, cresce rapidamente nos EUA, onde preenche uma lacuna importante que até então passara batido.

Redefinir a produtividade na cadeia de valor

A cadeia de valor de uma empresa inevitavelmente afeta — e é afetada — por vários temas da sociedade, como uso de recursos naturais e da água, saúde e segurança, condições de trabalho e igualdade de tratamento no local de trabalho. Surgem oportunidades para a criação de valor compartilhado porque problemas sociais podem trazer custos econômicos para a cadeia de valor da empresa. Muitas das chamadas externalidades acarretam um custo interno para a empresa, mesmo na ausência de regulamentação ou taxação de recursos. Produtos com embalagem excessiva e gases do efeito estufa não custam caro só para o meio ambiente, mas para a empresa também. O Walmart, por exemplo, conseguiu abordar essas duas questões ao reduzir embalagens e redirecionar a frota de caminhões para cortar 160 milhões de quilômetros das rotas de entrega em 2009, poupando US$ 200 milhões e, ainda assim, transportando mais coisas. A inovação na eliminação de plásticos usados nas lojas derrubou o custo do descarte em aterros, poupando outros milhões.

O novo raciocínio revela que a congruência entre progresso social e produtividade na cadeia de valor é muito maior do que sempre se acreditou (veja o quadro “O elo entre vantagem competitiva e questões sociais”). A sinergia aumenta quando a empresa aborda desafios da sociedade de uma perspectiva do valor compartilhado e inventa novas maneiras de operar para enfrentá-los. Até agora, porém, poucas empresas colheram todos os benefícios de produtividade em áreas como saúde, segurança, desempenho ambiental e retenção e capacidade de funcionários.




Mas há sinais inequívocos de mudança. Antigamente se achava que iniciativas para minimizar a poluição inevitavelmente aumentariam os custos da atividade empresarial e só ocorreriam por força da regulamentação e de impostos. Hoje, há um crescente consenso de que é possível obter grandes avanços no desempenho ambiental com tecnologias melhores a um custo nominal incremental — avanços que podem até resultar na redução líquida de custos graças ao melhor emprego de recursos, à maior eficiência de processos e a avanços na qualidade.

Em cada uma das áreas do quadro, uma compreensão mais profunda da produtividade e a crescente consciência da falácia da redução de custos a curto prazo (que em geral derruba a produtividade ou a torna insustentável) estão fazendo surgir novas abordagens. Vejamos algumas das grandes áreas nas quais o raciocínio do valor compartilhado está transformando a cadeia de valor — áreas que, longe de independentes, em geral se reforçam mutuamente. Iniciativas nessas e em outras arenas ainda são incipientes e suas implicações se farão sentir por muitos e muitos anos.

Uso de energia e logística. O consumo de energia ao longo da cadeia de valor está sendo revisto, seja em processos, transportes, edificações, cadeias de suprimento, canais de distribuição ou serviços de apoio. Deflagrado por saltos no preço da energia e uma nova consciência de oportunidades para eficiência energética, esse reexame já estava em curso antes mesmo de emissões de carbono terem virado uma preocupação global. O resultado foram avanços incríveis na utilização de energia graças a melhores tecnologias, reciclagem, cogeração e inúmeras outras práticas — práticas que geram valor compartilhado.

Estamos descobrindo que o transporte é caro não só devido ao custo energético e à emissão de poluentes, mas porque aumenta o tempo, a complexidade, custos de estoques e custos de gestão. Sistemas logísticos começam a ser redesenhados para reduzir distâncias de transporte, otimizar o manuseio, melhorar rotas de veículos e por aí vai. Todas essas medidas geram valor compartilhado. A ambiciosa reestruturação da cadeia de suprimento da varejista britânica Marks & Spencer, que inclui medidas simples como parar de comprar mercadorias num hemisfério para despachar a outro, deve poupar à varejista £ 175 milhões ao ano até o exercício fiscal de 2016, derrubando ao mesmo tempo muito de suas emissões de carbono. No processo de rever a logística, a opinião sobre a terceirização e a localização também será revista (como veremos mais adiante).

Uso de recursos. A maior conscientização ambiental e avanços tecnológicos estão catalisando novas abordagens em áreas como utilização da água, matérias-primas e embalagens, bem como a expansão da reciclagem e do reúso. As oportunidades valem para todo recurso, não só os identificados por ambientalistas. A melhor utilização de recursos — viabilizada pelo avanço da tecnologia — chegará a toda parte da cadeia de valor e se alastrará para fornecedores e canais. Aterros vão demorar mais a encher.

A Coca-Cola, por exemplo, já derrubou seu consumo mundial de água em 9% de 2004 para cá — quase metade da meta de redução de 20% até 2012. A Dow Chemical conseguiu reduzir o consumo de água potável em sua maior instalação de produção em quase 4 bilhões de litros — o suficiente para abastecer perto de 40 mil pessoas nos EUA por um ano —, conseguindo economia de US$ 4 milhões. A demanda por tecnologias para economia de água permitiu à indiana Jain Irrigation, fabricante global de sistemas completos de irrigação por gotejamento para conservação de água, atingir uma taxa composta de crescimento anual da receita de 41% nos últimos cinco anos.

Compras. A cartilha tradicional aconselha a empresa a comoditizar e a exercer o máximo poder de barganha sobre fornecedores para derrubar preços — até se estiver comprando de pequenas empresas ou de quem cultiva a terra em regime de subsistência. Mais recentemente, tem havido uma rápida terceirização para fornecedores em localidades de mão de obra mais barata.

Hoje, certas empresas começam a entender que fornecedores marginalizados não têm como seguir produtivos ou sustentar (e muito menos melhorar) a qualidade. Ao aumentar o acesso a insumos, partilhar tecnologias e conceder financiamento, uma empresa pode melhorar a qualidade e a produtividade de fornecedores e, ao mesmo tempo, garantir o acesso a um volume crescente. O aumento da produtividade em geral supera preços mais baixos. À medida que o fornecedor se fortalece, seu impacto ambiental costuma cair drasticamente, o que aumenta ainda mais a eficiência — e gera valor compartilhado.

Um bom exemplo dessa nova mentalidade no suprimento pode ser encontrado na Nespresso, uma das divisões que mais crescem na Nestlé (30% ao ano de 2000 para cá). A Nespresso combina uma sofisticada máquina de café expresso e cápsulas individuais de alumínio com café moído de todo o mundo. Ao oferecer qualidade e conveniência, a Nespresso ampliou o mercado de café nobre.

Garantir o fornecimento confiável de grãos especiais é, contudo, um imenso desafio. A maior parte do café é cultivada por pequenos agricultores em zonas rurais carentes da África e da América Latina, gente presa a um ciclo de baixa produtividade, má qualidade e degradação ambiental que limita o volume da produção. Para enfrentar esses problemas, a Nestlé reformulou o esquema de compras. Trabalhou intensamente com produtores, dando assessoria em práticas agrícolas, garantindo empréstimos bancários e ajudando a conseguir insumos como mudas, pesticidas e fertilizantes. A empresa ergueu instalações locais para avaliar a qualidade do café no ponto da compra, o que lhe permitiu pagar um prêmio por grãos melhores diretamente ao produtor e, assim, aumentar seu incentivo. Um maior rendimento por hectare e a maior qualidade da safra elevaram a renda do agricultor; já o impacto ambiental do cultivo diminuiu. Paralelamente, o suprimento garantido de café de boa qualidade à Nestlé cresceu consideravelmente — o que gerou valor compartilhado.

Nesse exemplo da Nestlé há um insight muito maior, que é a vantagem de comprar de fornecedores locais competentes. A terceirização para outras localidades e países gera custos de transação e ineficiências que podem anular custos menores de mão de obra e insumos. Fornecedores locais competentes ajudam a empresa a evitar esses custos e podem reduzir o tempo de ciclo, aumentar a flexibilidade, acelerar o aprendizado e viabilizar a inovação. Essa compra local não envolve só empresas locais, mas também divisões de companhias nacionais ou internacionais. Quando a empresa compra localmente, seus fornecedores podem ficar mais fortes, ter mais lucro, contratar mais gente e pagar salários melhores, o que acaba beneficiando outras empresas na comunidade — e gerando valor compartilhado.




Distribuição. Muitas empresas estão começando a reavaliar práticas de distribuição da perspectiva do valor compartilhado. Como demonstram iTunes, Kindle e Google Scholar (que oferece textos acadêmicos na internet), modelos novos e rentáveis de distribuição também podem reduzir drasticamente o uso de papel e plástico. Na mesma veia, o microcrédito criou um modelo econômico para levar serviços financeiros a pequenas empresas.

Oportunidades para novos modelos de distribuição podem ser ainda maiores em mercados pouco tradicionais. A Hindustan Unilever, por exemplo, está criando um novo sistema de distribuição direta em residências tocado por empreendedoras de classes desfavorecidas em vilarejos da Índia com menos de 2 mil habitantes. A Unilever dá microcrédito e treinamento e, hoje, tem mais de 45 mil empreendedoras cobrindo cerca de 100 mil povoados em 15 estados indianos. O Projeto Shakti, como é chamado esse sistema de distribuição, beneficia a comunidade não só ao dar à mulher uma capacitação que não raro dobra a renda da família, mas também ao reduzir a propagação de doenças transmissíveis graças ao acesso maior a produtos de higiene. É um bom exemplo de como a capacidade singular de uma empresa de chegar a consumidores fora de mão pode beneficiar a sociedade — nesse caso, ao levar produtos capazes de mudar a vida das pessoas às mãos de quem precisa. Hoje, o Projeto Shakti representa 5% da receita total da Unilever na Índia. Ampliou a presença da empresa em zonas rurais e promoveu sua marca em regiões onde a mídia não está presente, criando grande valor econômico para a empresa.

Produtividade do trabalhador. A ênfase em manter o salário lá embaixo, em cortar benefícios e em produzir no exterior começa a dar lugar à consciência do efeito positivo, sobre a produtividade, do salário digno, da segurança, do bem-estar, do treinamento e de oportunidades de progresso para o trabalhador. Muitas empresas, por exemplo, sempre buscaram minimizar o custo da “onerosa” assistência médica ao trabalhador — ou até eliminar por completo essa cobertura. Hoje, grandes empresas descobriram que, devido a dias de trabalho perdidos e à queda na produtividade do pessoal, a má saúde custa mais à empresa do que a assistência médica. A Johnson & Johnson é uma. Ao ajudar o trabalhador a deixar de fumar (redução de dois terços nos últimos 15 anos) e instituir vários outros programas de bem-estar, a empresa cortou em US$ 250 milhões seus custos de saúde, um retorno de US$ 2,71 para cada dólar gasto em bem-estar de 2002 a 2008. Além disso, a Johnson & Johnson ganhou com uma força de trabalho mais presente e produtiva. Se os sindicatos também focassem mais o valor compartilhado, esse tipo de iniciativa se propagaria ainda mais depressa.

Localização. O ideário administrativo incorporou o mito de que a localização já não importa, pois a logística custa pouco, a informação flui rapidamente e os mercados são globais. Quanto mais barata a localidade, portanto, melhor. A preocupação com as comunidades locais nas quais a empresa atua evaporou.

Esse raciocínio simplista hoje está sendo questionado. Em parte, devido à alta dos custos de energia e emissões de carbono, mas também pelo maior reconhecimento dos custos de produtividade de sistemas de produção altamente dispersos e dos custos ocultos de comprar longe de casa, algo que já discutimos. O Walmart, por exemplo, abastece cada vez mais suas seções de alimentos com hortifrútis cultivados perto de seus armazéns. E descobriu que a redução nos custos de transporte e a capacidade de comprar quantidades menores mais do que compensam o preço menor de propriedades industriais de cultivo mais distantes. A Nestlé está abrindo fábricas menores mais perto de seus mercados e intensificando iniciativas para maximizar o uso de materiais disponíveis localmente.

O cálculo da instalação de atividades em países em desenvolvimento também está mudando. Grande produtora de castanha de caju, a Olam International costumava despachar o produto da África para ser processado na Ásia em instalações operadas por trabalhadores asiáticos, gente produtiva. Mas, ao abrir unidades de processamento locais e capacitar trabalhadores na Tanzânia, Moçambique, Nigéria e Costa do Marfim, a Olam cortou custos de processamento e transporte em até 25% — e reduziu enormemente as emissões de carbono. Com a mudança, a Olam também estabeleceu relações preferenciais com agricultores locais. Deu emprego direto a 17 mil pessoas — 95% delas mulheres— e indireto a um número idêntico de gente em zonas rurais onde não havia qualquer outra perspectiva de emprego.

Essas tendências podem muito bem levar uma empresa a refazer sua cadeia de valor, o que incluiria instalar certas atividades mais perto de casa e manter um número menor de grandes unidades de produção. Até aqui, muitas empresas acharam que globalizar era transferir a produção para locais com a mão de obra mais barata e projetar a cadeia de suprimento de modo a conseguir o impacto mais imediato nos gastos. Na verdade, as concorrentes internacionais mais fortes em geral serão as que criarem raízes mais profundas em comunidades importantes. Empresas que puderem assimilar esse novo raciocínio na localização vão gerar valor compartilhado.

Como ilustram esses exemplos, reimaginar a cadeia de valor da perspectiva do valor compartilhado mostrará para a empresa novos caminhos para inovar e liberar mais valor econômico — caminho que a maioria até aqui não enxergou.


Promover o desenvolvimento de clusters locais

Empresa nenhuma é autossuficiente. O sucesso de qualquer empresa é afetado por negócios de apoio e pela infraestrutura que a cerca. A produtividade e a inovação são fortemente influenciadas por “clusters”, ou concentrações geográficas de empresas, negócios correlatos, fornecedores, prestadores de serviços e infraestrutura logística numa determinada arena — como a TI no Vale do Silício, flores de corte no Quênia e corte de diamantes em Surat, na Índia.

Um cluster não inclui só empresas, mas também instituições como programas acadêmicos, associações comerciais e organizações de normalização. Também se vale de ativos públicos na comunidade a seu redor, como escolas e universidades, água potável, leis de justa concorrência, padrões de qualidade e transparência do mercado.

Clusters são importantes em toda economia regional que prospera e cresce — e exercem um papel crucial na promoção da produtividade, da inovação e da competitividade. Fornecedores locais competentes promovem uma maior eficiência logística e facilidade de colaboração, como já vimos. Capacidades locais mais sólidas em áreas como treinamento, serviços de transporte e indústrias correlatas também aumentam a produtividade. Já sem um cluster de apoio, a produtividade sofre.

Deficiências nas condições estruturais em torno do cluster também criam custos internos para empresas. Um ensino público de má qualidade acarreta custos de produtividade e de capacitação corretiva. Uma infraestrutura de transportes precária eleva custos de logística. A discriminação racial ou de gênero reduz a reserva de trabalhadores capazes. A pobreza limita a demanda de produtos e leva à degradação ambiental, a trabalhadores sem saúde e a altos custos de segurança. Com a empresa cada vez mais desconectada da comunidade, sua influência na resolução desses problemas diminuiu — enquanto seus custos subiram.

Uma empresa gera valor compartilhado ao criar clusters para melhorar a própria produtividade e, ao mesmo tempo, preencher lacunas ou corrigir falhas nas condições estruturais em torno do cluster. Iniciativas para desenvolver ou atrair fornecedores capazes, por exemplo, produzem os benefícios de suprimento que discutimos anteriormente. Observa-se, no pensamento administrativo, total ausência de um foco em clusters e em localização. A mentalidade do cluster tampouco figura em muitas iniciativas de desenvolvimento econômico, que naufragaram por envolver intervenções isoladas e ignorar investimentos complementares críticos.

Um aspecto crucial da criação de clusters em países desenvolvidos e em desenvolvimento é a formação de mercados abertos e transparentes. Em mercados ineficientes ou monopolizados onde o trabalhador é explorado, onde o preço pago a fornecedores não é justo e onde preços não são transparentes, a produtividade sofre. Viabilizar mercados justos e abertos, o que em geral é mais fácil com a ajuda de parceiros, pode permitir a uma empresa garantir um suprimento fiável e dar a fornecedores mais incentivos para a qualidade e a eficiência — e, ao mesmo tempo, aumentar consideravelmente a renda e o poder aquisitivo da população local. Disso resulta um ciclo positivo de desenvolvimento econômico e social.

Quando cria um cluster em suas principais bases de operação, a empresa também intensifica o elo entre seu sucesso e o sucesso das comunidades. O crescimento de uma empresa tem efeitos multiplicadores, pois gera emprego em setores de apoio, lança a semente de novos negócios e aumenta a demanda de serviços auxiliares. O esforço da empresa para melhorar condições estruturais para o cluster contribui para outros atores e para a economia local. Iniciativas de desenvolvimento da força de trabalho, por exemplo, aumentam a oferta de trabalhadores qualificados para muitas outras empresas também.

Na Nespresso, a Nestlé também se empenhou em criar clusters, o que tornou suas práticas de compras bem mais eficazes. A empresa buscou estabelecer operações e recursos agrícolas, técnicos, financeiros e logísticos em cada região cafeeira para garantir ainda mais eficiência e uma produção local de alta qualidade. A Nestlé liderou iniciativas para aumentar o acesso a insumos agrícolas essenciais como mudas, fertilizantes e equipamento de irrigação; fortalecer cooperativas agrícolas regionais e ajudar a financiar instalações coletivas de despolpagem por via úmida para a produção de grãos de alta qualidade; e apoiar um programa de extensão para assessorar agricultores sobre técnicas de cultivo. Também trabalhou ao lado da Rainforest Alliance — uma importante ONG internacional — para levar ao produtor práticas mais sustentáveis, que tornam mais garantido o volume de produção. No processo, a produtividade da Nestlé aumentou.

Um bom exemplo de empresa empenhada em melhorar as condições estruturais de seu cluster é a Yara, maior fabricante de fertilizantes minerais do mundo. A Yara percebeu que a falta de infraestrutura logística em muitas partes da África estava impedindo o acesso eficiente do agricultor a fertilizantes e outros insumos agrícolas essenciais, bem como o transporte eficiente da colheita ao mercado. Para enfrentar o problema, a empresa está investindo US$ 60 milhões num programa para melhorar portos e estradas e, com isso, criar corredores de crescimento agrícola em Moçambique e na Tanzânia. Essa iniciativa é tocada com governos locais e tem o apoio do governo da Noruega. Só em Moçambique, o corredor deverá beneficiar mais de 200 mil pequenos agricultores e criar 350 mil empregos. As melhorias vão contribuir para os negócios da Yara e para todo o cluster agrícola, gerando um enorme efeito multiplicador.

Criar clusters traz benefícios não só em economias emergentes, mas em países avançados também. O Research Triangle, na Carolina do Norte, EUA, é um notável exemplo de colaboração público-privada que criou valor compartilhado graças ao desenvolvimento de clusters em áreas como tecnologia da informação e ciências da vida. A região, que se beneficiou do investimento continuado tanto do setor privado como do governo local, registrou um crescimento enorme em vagas de trabalho, renda e desempenho de empresas, e se saiu melhor do que a maioria durante a crise.

Para apoiar o desenvolvimento de clusters nas comunidades em que atua, a empresa precisa identificar lacunas e deficiências em áreas como logística, fornecedores, canais de distribuição, treinamento, organização de mercado e instituições de ensino. A tarefa seguinte é se concentrar em deficiências que representam os maiores impedimentos à produtividade e ao crescimento da própria empresa e distinguir áreas que a empresa está mais bem aparelhada para influenciar diretamente daquelas em que colaborar tem melhor relação custo-benefício. É aqui que as oportunidades de geração de valor compartilhado serão maiores. Iniciativas para eliminar deficiências do cluster que limitam empresas serão muito mais eficazes do que programas de responsabilidade social focados na comunidade, que não raro têm impacto limitado, pois contemplam muitas áreas sem focar no valor.

Só que iniciativas para melhorar a infraestrutura e instituições de uma região muitas vezes exigem ação coletiva, como mostram os exemplos da Nestlé, da Yara e do Research Triangle. Uma empresa deve tentar atrair parceiros para dividir custos, obter apoio e reunir a capacitação certa. Os programas de desenvolvimento de clusters mais bem-sucedidos são aqueles que envolvem a colaboração na iniciativa privada, bem como com associações comerciais, agências públicas e ONGs.




Criando valor compartilhado na prática

Nem todo lucro é igual — ideia que se perdeu no foco estreito e imediatista do mercado financeiro e em muito do pensamento administrativo. O lucro que envolve um propósito social é uma forma superior de capitalismo — forma que permitirá à sociedade avançar mais rapidamente e, a empresas, crescer ainda mais. O resultado é um ciclo positivo de prosperidade empresarial e social que torna sustentável o lucro.

A criação de valor compartilhado pressupõe a conformidade com a legislação e com normas éticas, bem como a mitigação de qualquer dano causado pela empresa. Mas vai muito além disso. A oportunidade de gerar valor econômico através da criação de valor social será uma das mais poderosas forças motrizes do crescimento econômico mundial. Essa ideia representa uma nova forma de entender clientes, produtividade e influências externas sobre o sucesso da empresa. Põe em relevo as enormes necessidades humanas a serem satisfeitas, os grandes e novos mercados a servir e os custos internos de déficits sociais e comunitários — bem como vantagens competitivas a serem obtidas com seu enfrentamento. Até bem pouco, uma empresa simplesmente não abordava as operações sob esse prisma.

A criação de valor compartilhado será mais eficaz e muito mais sustentável do que a maioria das iniciativas empresariais de hoje na arena social. A empresa registrará verdadeiros avanços na questão ambiental, por exemplo, quando tratá-la como motor da produtividade, não como resposta cosmética à pressão externa. Ou peguemos o acesso à moradia. Uma abordagem de valor compartilhado teria levado instituições de serviços financeiros a criar produtos inovadores que aumentassem com prudência o acesso à casa própria. Foi algo reconhecido pela construtora mexicana Urbi, primeira a lançar um plano de financiamento do imóvel no esquema “alugar para comprar”. Já grandes bancos nos EUA promoveram veículos de financiamento insustentáveis que se provaram social e economicamente devastadores — ao mesmo tempo se dizendo socialmente responsáveis por contar com programas filantrópicos.

É inevitável que as oportunidades mais férteis para a geração de valor compartilhado estejam intimamente ligadas ao negócio específico da empresa, e em áreas mais importantes para o negócio. Aqui, a empresa pode se beneficiar mais economicamente e, portanto, sustentar o compromisso ao longo do tempo. É aqui também que a empresa pode aportar mais recursos e onde sua escala e presença no mercado permitem que tenha um impacto significativo sobre um problema da sociedade.




Ironicamente, muitos dos pioneiros do valor compartilhado foram aqueles com recursos mais limitados — empreendedores sociais e empresas em países em desenvolvimento. Esses atores marginais conseguiram enxergar com mais clareza as oportunidades. No processo, a distinção entre atividades com e sem fins lucrativos perde nitidez.

O valor compartilhado está definindo um novo conjunto de melhores práticas que toda empresa deve adotar. Também será parte indissociável da estratégia. A essência da estratégia é definir um posicionamento único e uma cadeia de valor distintiva que contemple essa escolha. O valor compartilhado abre muitas necessidades novas a satisfazer, novos produtos a oferecer, novos clientes a servir e novas maneiras de configurar a cadeia de valor. E as vantagens competitivas que resultam da criação de valor compartilhado em geral serão mais sustentáveis do que avanços convencionais em custo e qualidade. É possível pôr fim ao ciclo da imitação e à competição de soma zero.

As oportunidades para geração de valor compartilhado crescem e se proliferam. Embora nem toda empresa vá achar oportunidades em toda área, nossa experiência mostra que a empresa descobre mais e mais oportunidades à medida que suas unidades operacionais assimilam o conceito. Levou uma década, mas a iniciativa Ecomagination, da GE, hoje está gerando um fluxo de produtos e serviços de rápido crescimento em toda a empresa.

Toda decisão importante da empresa pode ser analisada sob a ótica do valor compartilhado. O projeto de um produto poderia incorporar benefícios sociais maiores? Estamos servindo a todas as comunidades que se beneficiariam de nossos produtos? Nossos processos e abordagens logísticas maximizam a eficiência no uso da energia e da água? Nossa nova fábrica poderia ser construída de modo a exercer um impacto maior na comunidade? Lacunas em nosso cluster estão reduzindo a eficiência e a velocidade da inovação? De que maneira? Como tornar nossa comunidade um lugar melhor para os negócios? Se pontos comerciais distintos são economicamente equivalentes, com qual deles a comunidade local se beneficiaria mais? Se uma empresa puder melhorar as condições sociais, é comum que melhore também as condições de negócios e desencadeie, com isso, loops de feedback positivo.

Os três caminhos para a geração de valor compartilhado se reforçam mutuamente. Fortalecer o cluster, por exemplo, permitirá mais compras no local e cadeias de suprimento menos dispersas. Produtos e serviços novos, que atendam a necessidades sociais ou sirvam a mercados ignorados, vão exigir escolhas na cadeia de valor em áreas como produção, marketing e distribuição. E novas configurações da cadeia de valor vão gerar demanda de equipamentos e tecnologia que poupem energia, conservem recursos e deem apoio a trabalhadores.

A criação de valor compartilhado exigirá métricas concretas e customizadas para cada unidade de negócios em cada uma das três áreas. Certas empresas começam a monitorar uma série de impactos sociais, mas poucas já vincularam esses impactos a seus interesses econômicos no plano mercadológico.

A geração de valor compartilhado envolverá formas novas — e superiores — de colaboração. Embora certas oportunidades de valor compartilhado possam ser exploradas pela empresa sozinha, outras irão se beneficiar de conhecimentos, capacitação e recursos que transponham as fronteiras da atividade com ou sem fins lucrativos e do setor público ou privado. Aqui, a empresa terá menos sucesso se tentar resolver sozinha um problema social, sobretudo quando este envolve o desenvolvimento do cluster. Além disso, grandes rivais podem ter de trabalhar juntas em condições estruturais pré-competição, algo pouco comum em iniciativas de RSE para melhorar a reputação. A colaboração de sucesso será movida a dados, claramente ligada a resultados definidos, condizente com objetivos de todas as partes interessadas e monitoradas com métricas claras.

Governos e ONGs podem viabilizar e reforçar o valor compartilhado ou obstruir sua geração (leia mais sobre o tema no quadro “Normas do governo e valor compartilhado”).




A próxima evolução no capitalismo

O valor compartilhado é a chave que irá abrir a próxima onda de inovação e crescimento nas empresas. Além disso, vai reconectar o sucesso da empresa e o sucesso da comunidade de um jeito que ficou esquecido numa era de abordagens de gestão tacanhas, raciocínio imediatista e crescente divisão entre as instituições da sociedade.

O valor compartilhado faz a empresa se concentrar no lucro certo: o lucro que gera — em vez de reduzir — benefícios para a sociedade. O mercado de capitais sem dúvida seguirá fazendo pressão para que empresas deem lucro a curto prazo, e certas empresas certamente seguirão registrando lucro à custa de necessidades da sociedade. Só que esse lucro em geral terá curta duração; oportunidades muito maiores serão perdidas.

O momento para uma visão ampliada da geração de valor chegou. Uma série de fatores, como a crescente conscientização social de trabalhadores e cidadãos e a crescente escassez de recursos naturais, abrirá oportunidades sem precedentes para a geração de valor compartilhado.

Precisamos de uma forma mais sofisticada de capitalismo — forma imbuída de um propósito social. Mas esse propósito não deve surgir da caridade, mas de um entendimento mais profundo da concorrência e criação de valor econômico. Essa próxima evolução do modelo capitalista reconhece novas e melhores maneiras de desenvolver produtos, atender a mercados e erguer empreendimentos produtivos.

A geração de valor compartilhado representa uma concepção mais ampla da mão invisível de Adam Smith. Abre as portas da fábrica de alfinetes a um leque maior de influências. Não é filantropia, mas um comportamento que, ditado pelo interesse próprio, busca gerar valor econômico pela geração de valor social. Se toda empresa buscasse individualmente o valor compartilhado ligado a suas atividades específicas, o interesse maior da sociedade seria atendido. E a empresa adquiriria legitimidade aos olhos das comunidades em que atua — o que faria a democracia funcionar, pois o governo adotaria políticas de fomento e apoio à atividade empresarial. No final, ainda venceria o mais forte, mas a disputa no mercado beneficiaria a sociedade de um jeito que já não ocorre.

A geração de valor compartilhado representa uma nova abordagem à gestão — abordagem que engloba várias disciplinas. Devido à tradicional divisão entre interesses econômicos e sociais, indivíduos nos setores público e privado em geral seguiram caminhos educacionais e profissionais muito distintos. Como resultado, poucos gestores têm a compreensão de questões sociais e ambientais exigida para extrapolarem a atual abordagem de RSE, e poucos líderes do setor social têm formação administrativa e mentalidade empreendedora para conceber e implementar modelos de valor compartilhado. A maioria dos cursos de administração ainda ensina a visão estreita do capitalismo, ainda que mais e mais alunos anseiem por um senso maior de propósito e um número crescente seja atraído para o empreendedorismo social. Os resultados são oportunidades perdidas e um público cético.

O currículo da escola de negócios terá de se expandir numa série de áreas. O uso e o manejo eficientes de toda forma de recursos, por exemplo, vão definir a próxima geração de ideias sobre a cadeia de valor. Disciplinas de marketing e comportamento de clientes terão de ir além da persuasão e da geração de demanda; terão de estudar necessidades humanas mais profundas e descobrir como servir a grupos de clientes fora do tradicional. Clusters e influências maiores do lugar sobre a produtividade e a inovação na empresa serão um novo núcleo temático em cursos de administração; o desenvolvimento econômico deixará de ser seara exclusiva de departamentos de políticas públicas e economia. Matérias sobre a iniciativa privada e o poder público examinarão o impacto econômico de fatores sociais sobre empresas, indo além dos efeitos da regulamentação e da macroeconomia. E a área financeira terá de rever como o mercado de capitais pode de fato promover a geração de valor real na empresa — seu propósito básico — em vez de apenas beneficiar participantes do mercado financeiro.

Não há nada de imaterial no conceito de valor compartilhado. As mudanças propostas no currículo de escolas de negócios não são qualitativas e não rejeitam a geração de valor econômico. Representam, antes, o próximo estágio em nossa compreensão de mercados, concorrência e administração de empresas.

Nem todo problema da sociedade pode ser resolvido com soluções de valor compartilhado. Mas o valor compartilhado dá a empresas a oportunidade de utilizar sua capacitação, seus recursos e sua capacidade de gestão para promover o progresso social de um jeito que até a mais bem-intencionada das organizações do poder público e do setor social dificilmente poderia igualar. No processo, a empresa pode voltar a ter o respeito da sociedade.

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Michael E. Porter é titular da cátedra Bishop William Lawrence University Professor da Harvard University, nos EUA. Mark R. Kramer é diretor-gerente da consultoria especializada em impacto social FSG, que fundou com Porter. Kramer pertence à iniciativa de RSE da Kennedy School of Government (Harvard University).